14/08/2026
A Sinfonia da Criação e o Silêncio das Abelhas
Ao nascerem os seres humanos já têm o seu ouvido interno perfeitamente estruturado, dado que ele atingiu a sua maturidade por volta da vigésima semana de gestação. Como tal, os estímulos sonoros constituem, a primeira grande ponte da comunicação entre o novo ser humano e o mundo exterior.
Isto faz, naturalmente, perceber a importância dos sons como meio de comunicação entre os humanos, seja para transmitir as suas emoções de caráter curto, seja para traduzir os seus sentimentos, isto é, emoções racionalizadas e duradouras.
Num plano tradicional romântico, a música é a linguagem das paixões e emoções, servindo para traduzir diretamente os estados de alma do autor.
Durante séculos, a música ocidental utilizou, como base da sua linguagem , o sistema de temperamento igual que divide a oitava em doze semitons fixos. Todavia, com o advento da tecnologia das novas estéticas, esses “átomos” rígidos foram estilhaçados e hoje a criação de novos sinais sonoros é não só possível, como esperada na música contemporânea.
Uma pauta musical , obra de um autor, pode dizer-se que constitui um código , pronto a ser traduzido em sons, que irão determinar emoções, sentimentos nos seus auditores ; muitas vezes , para além do que está escrito, os próprios executantes também vão, à medida ensaiam, completando/alterando com sinais próprios que traduzem uma contribuição interpretativa. E assim, uma pauta musical será um universo muito complexo, habitado por sinais das mais variadas espécies e naturezas.
É neste universo que nós encontramos dois sinais, a que desejamos dar alguma atenção particular: uma semibreve e uma semínima, e é na relação delas que nos vamos fixar.
A semibreve tem uma duração muito maior e a semínima tem um quarto dessa duração. Consequentemente, a semibreve sempre se considerou superior à semínima, embora esta lhe fizesse sentir, de todas as maneiras possíveis, que uma montanha pode traduzir alguma coisa, mas um ser mais pequeno, que tenha uma maior mobilidade, que tenha outra rapidez de viver a sua vida, é talvez muito mais rico em traduzir alguma coisa mais desse viver.
Depois de discutirem muitas vezes entre si, resolveram um dia apelar para uma autoridade que pensavam superior: o compasso, dado que ele é que distribuía como é que os diversos segmentos da obra musical iam ser preenchidos e aí estava a distribuição entre as várias figuras que se podiam utilizar, nomeadamente entre as semibreves e as semínimas.
O compasso consultado, 4 por 4, pensou, pensou e respondeu-lhes mais ou menos deste modo: minhas amigas, estais a colocar uma falsa questão, porque em verdade, tudo aquilo que existe faz falta e cada um tem o seu papel e todos estes papéis estão interligados sempre constituindo cadeias. Basta que um elo de dada cadeia não funcione bem para que tudo se desmorone. E deu-lhes até o exemplo de uma máquina ou uma vaca puxando um arado a lavrar um campo, a importância enorme que tem, e de uma minhoca introduzida no terreno, a quem, provavelmente, ninguém dá importância. Mas, na verdade, a minhoca está também a desempenhar uma função extremamente importante, ao permitir arejar o terreno e, consequentemente, tudo é necessário, poder-se-á mesmo dizer igualmente necessário para que a harmonia se atinja.
A vida é, efetivamente, uma enorme sinfonia em que todos os sons, todos os sinais, dos mais pequenos aos maiores, são igualmente, necessários.
Esta harmonia, contudo, não é um dado adquirido, mas uma partitura em constante execução que exige o respeito absoluto pelo silêncio e pelo tempo de cada interveniente. Como nos recorda o Papa Francisco na Laudato Si', vivemos numa 'casa comum' onde 'tudo está interligado'. A semibreve e a semínima, tal como a montanha e a minhoca, não são elementos isolados, mas fios de uma mesma tapeçaria de vida.
Quando a soberba humana decide reescrever a pauta, silenciando os sons que considera 'insignificantes', o resultado não é uma nova estética, mas uma cacofonia destrutiva. Se retirarmos da sinfonia da criação o zumbido discreto das abelhas — esses pequenos maestros da polinização que, tal como a semínima, garantem o ritmo da vida — o compasso da humanidade quebra-se. Sem o seu contributo invisível, as flores não se tornam fruto, as mesas esvaziam-se e o silêncio que se segue não é de contemplação, mas de ausência.
São Francisco de Assis, no seu Cântico das Criaturas, não chamava apenas 'irmão' ao sol ou à lua, mas reconhecia, na humildade da terra e dos seus seres mais ínfimos, a assinatura do Criador. A crise ecológica que atravessamos é, no fundo, uma crise de audição: deixámos de ouvir o 'grito da terra' e o 'grito dos pobres' porque nos esquecemos de que a beleza da obra depende da integridade do código original.
A desgraça que hoje enfrentamos — o desequilíbrio do clima, a extinção de espécies, a desertificação — é o som de um instrumento que se julga solista e se esquece da orquestra. É urgente compreender que, se a nota mais pequena for apagada por negligência ou ganância, a sinfonia termina abruptamente para todos. Pois, no grande concerto do Universo, a sobrevivência do gigante depende sempre da integridade do pequeno; e a humanidade, se quiser continuar a existir, terá de reaprender a amar a música da Criação na sua totalidade, sem excluir um único sinal, por mais breve que seja a sua passagem pelo tempo.