18/08/2026
Em culturas variadas, existe a noção de que traumas, culpas e dores não elaboradas são transmitidos como fardos invisíveis: um pai ou uma mãe pode passar ao filho uma culpa que não lhe pertence; um povo pode carregar a dor de seus ancestrais; uma comunidade pode perpetuar medos que nasceram em outra época.
Tanto transferir responsabilidades quanto assumir responsabilidades alheias pode gerar sofrimento, porque ambas podem ser formas de fugir daquilo que nos cabe e, ao mesmo tempo, distorcer aquilo que pertence ao outro. A grande questão talvez seja, portanto, estabelecer com clareza o escopo da responsabilidade de cada um.
Gosto de pensar, tal qual o tio do Homem-Aranha: “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.”
Há poderes que não são concedidos por uma instituição. São devolvidos a cada pessoa, diariamente, no íntimo de sua própria consciência e pelo exercício do livre-arbítrio: a responsabilidade de agir eticamente e de buscar aprimorar-se enquanto ser humano.
É nesse ponto que tanto transmitir quanto assumir responsabilidades alheias pode se tornar danoso. Não é possível obrigar alguém a fazer terapia, a cuidar do próprio corpo, a rever seus pensamentos ou a elaborar suas reações emocionais. E o mais complexo é que nenhuma transformação interna está verdadeiramente apartada da ação externa. Aquilo que uma pessoa elabora, ou deixa de elaborar, manifesta-se no cargo que ocupa, na maneira como se relaciona com os outros, no seu corpo e na forma como enxerga o mundo.
Por isso, assumir o papel de agir pelo outro é tão delicado. É justamente no trabalho cotidiano, nas atividades mundanas e nas interações corriqueiras que as pessoas se conhecem, confrontam suas limitações e têm a oportunidade de se aprimorar.
Você pode tratar o outro como gostaria de ser tratado, oferecer suporte dentro das suas possibilidades e estar presente quando necessário. Mas não pode querer por ele, nem fazer por ele aquilo que depende de sua própria vontade. Essa responsabilidade não pode ser assumida por outra pessoa.