16/02/2024
O SILÊNCIO QUE DESABA SOBRE NÓS
Nunca é demais lembrar. Na próxima terça, dia 20, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, preso há 5 anos em Londres, sem julgamento, terá o recurso contra sua extradição para os EUA julgado pelas cortes britânicas. Apoie os atos em defesa de Assange que ocorrem no Rio, São Paulo, Porto Alegre, Salvador e Curitiba.
Julian Assange cometeu o crime de revelar crimes. A partir de 2006, publicou na plataforma WikiLeaks centenas de documentos vazados por denunciantes de sua rede de contatos que comprovam inúmeros crimes cometidos por Estados ocidentais.
Trouxe à luz os mais importantes: documentos que comprovam a atuação violenta, persecutória, discriminatória, cruel e acima das leis internacionais, dos Estados Unidos, de suas agências de inteligência, de seu Exército nas guerras do Afeganistão e do Iraque.
Assange fez o que fazem todos os dias jornais e meios de comunicação corporativa do mundo inteiro: fez jornalismo.
Publicou informações verdadeiras. Documentos mantidos em segredo para esconder do cidadão comum crimes cometidos por autoridades em seu nome.
Se extraditado, Assange será julgado nos EUA, num tribunal localizado a uma centena de metros do quartel general da CIA. Responderá por 18 acusações que elevam sua pena a 175 anos de prisão, na condição de prisioneiro de alta periculosidade.
Como se não bastasse este cenário de injustiça evidente, nós, o povo, temos que lidar com o silêncio de quem deveria neste momento estar gritando pela defesa de Assange.
A começar pelo governo brasileiro e pelo presidente Lula. Depois de algumas provocações muito bem colocadas, feitas lá em 2010, e mais recentemente depois de sua eleição em 2022, quando perguntou aos jornalistas por que não defendiam Assange, Lula se calou. Seu Ministério das Relações Exteriores se calou. Seu Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania idem.
O governo parece ter comprado a versão da grande mídia corporativa de que Assange é um criminoso porque revelou segredos de Estado. O que absolutamente não faz o menor sentido.
Foi através do WikiLeaks de Julian Assange que se revelou ao mundo o grampo que a CIA botou dentro do Palácio do Planalto para espionar a então presidenta Dilma Rousseff. Assange é um defensor da democracia radical, a mesma de que Lula sempre foi um símbolo.
CONDENAÇÃO DE ASSANGE ENTERRA MITO DA LIBERDADE DE IMPRENSA
Há coisa pior. Temos os jornalistas e o jornalismo. A grande maioria em silêncio, como se nada estivesse acontecendo. Como se a condenação de Assange não representasse uma bigorna descendo em alta velocidade sobre a cabeça de cada jornalista que, no futuro, ousar revelar crimes dos poderosos.
Na prática, a condenação de Assange enterra o mito da liberdade de imprensa.
Para jovens jornalistas que nunca lutaram por nada além do pão de cada dia, mais ou menos liberdade parece importar pouco. Se o cara não fala português, não é preto, gay ou esteve perto de entrar no BBB, muito menos. Essa é cabeça “xóvem”, lamentavelmente.
A luta pelos direitos humanos e direitos civis se confunde com a luta antirracista, por liberdade de gênero e igualdade social. Mas quem vai contar para eles? O Tinder ou o Tik Tok?
Do lado de cá da poça, instituições históricas de defesa da democracia se calaram. OAB, ABI, sindicatos, centrais sindicais, partidos políticos - ninguém fala nada. Nem a favor, nem contra. Deixam o telefone tocar, as mensagens sem resposta enquanto procuram um muro inexistente para se equilibrar.
O silêncio que desaba sobre suas cabeças será sentido quando o primeiro censor voltar presencialmente às redações. Porque presente ele já está, oculto nos algoritmos das big techs, que privilegiam uns temas e escondem outros, considerados indesejáveis.
Enquanto isso, na Argentina, haverá um showmício por Assange na Plaza de Mayo, em Buenos Aires. Em 30 cidades do mundo, manifestações vão ocorrer.
No Brasil, Rio, São Paulo, Porto Alegre, Salvador e Curitiba têm atos programados para os dias 18, 19 e 20.
Como disse Christophe Pechoux, veterano lutador pelos direitos humanos no Alto Comissariado da ONU, Julian Assange não deveria nem estar preso. Ele deveria estar aqui, ao nosso lado, em nosso escritório, lutando por liberdade de imprensa e direitos humanos. Nós devemos a ele uma defesa ampla e limpa. Da verdade contra a mentira.