02/04/2016
Política
Os próximos passos da crise
Como a saída do PMDB da base do governo altera o jogo da crise política
O alvo da Lava Jato é o sistema político corrupto e seu modo de funcionamento. E o alvo do sistema político é tentar escapar da Lava Jato por meio de uma blindagem em relação às investigações. E, nesse sentido, a movimentação do impeachment é uma tentativa de reorganizar o sistema e reconstruir os muros que foram bombardeados pelas Polícia Federal e pelo Ministério Público.
Não se trata do impeachment em si, mas de sua movimentação. Isso porque os passos dados pelos atores do impedimento não objetivam, necessariamente, a derrubada da presidente rumo à ocupação do poder no sentido de tirar o país da crise. Signif**am levantar barreiras de proteção para o próprio sistema político; sair da própria crise, do seu estado terminal, tentando colocar vinho novo em odres velhos. Em uma palavra: o discurso é o de “salvar o Brasil do PT”, mas o objetivo real é, literalmente, salvar-se do xadrez da Lava Jato.
O impeachment constitui-se, nesse sentido, uma espécie de bote salva vidas para a classe política fisiológica, que usa a justif**ada indignação do brasileiro no tocante à corrupção, para trocar a figura do presidente, mas não a forma como se dá a reprodução da promiscuidade no ambiente público-privado.
O impeachment é, nesse contexto, um instrumento da elite política para não ser alvo da Lava Jato, e seu adiamento e sua constante indefinição fez parte de uma estratégia política que objetivou dificultar as ações dos promotores e delegados, que precisaram lançar-se sobre o sistema político por diversas frentes, tentando encurralá-lo, mas sem eficiência, dada a constante metamorfose do sistema.
Mas a indefinição teve um custo político alto, e as movimentações das ruas – tanto a do dia 13 quanto do dia 18 – colocaram sobre os jogadores políticos do impeachment o chamamento a uma decisão: ou um xeque-mate na presidente ou a desistência do jogo. Em grande parte, isso será decidido na reunião do PMDB, no dia 29 de março, que dirá se o partido f**a ou não no governo.
Do ponto de vista do governo, essa decisão é fundamental, pois uma indefinição, à essa altura, faz com que não se saiba, de fato, quantos votos se tem para barrar o impeachment, e nem permite que se tente consegui-los por meio do convencimento, posto não se saber quem está em dúvida.
Mas essa definição também é crucial à Lava Jato. Explico: se o PMDB desocupar os cargos, f**ará claro aos investigadores quais serão os caminhos a serem percorridos pelos principais establishments que, na lógica da operação, controlam sob o ponto de vista político, o sistema de propinas envolvendo as principais empreiteiras do país.
Dessarte, evidenciará à operação que o sistema político majoritário migrará para uma reorganização via Temer. Em função disso, é bem provável que nos próximos dias sejam revelados à opinião pública parte de delações envolvendo o vice-presidente e os principais articuladores do impeachment. Mas essas revelações, provavelmente, terão pouca cobertura da grande imprensa, que está alinhada à “saída Temer”.
Mas se o PMDB não sair, a Lava Jato atacará em conjunto o bloco PMDB/PT e partidos adjacentes, pois, na lógica dos investigadores, os partidos se concentrarão numa saída a posteriori por meio de uma reunif**ação, possivelmente, por meio de Lula. Se assim acontecer, este será o alvo fundamental da Lava Jato nas próximas semanas.
Esse dia D do PMDB, na verdade, é um dia D para o Brasil. É uma definição que fará com que o jogo fique mais claro para todos os lados: à opinião pública, ao governo, aos aliados do impeachment, e à Lava Jato. Todos aguardam, ansiosamente, o desembarque ou a continuação da viagem do PMDB no navio governista.
Será, a partir daí, que se poderá ver onde essa nau da crise chegará, porque até agora só temos visto de onde ela partiu.