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O voto que pode custar o mercado do agro brasileiro: se Lula cair, vocês vão juntoO problema não é gostar dos Estados Un...
07/10/2026

O voto que pode custar o mercado do agro brasileiro: se Lula cair, vocês vão junto
O problema não é gostar dos Estados Unidos ou da China. É saber quem compra, quem concorre, quem controla ativos estratégicos e o que o Brasil perde quando troca margem de manobra por alinhamento. Os documentos já permitem fazer essa conta sem adivinhação.
Quando a ideologia chega à planilha
Há alguns meses publiquei um texto chamado “Se Lula cair, vocês caem junto”. O argumento era simples. Num mundo reorganizado pela disputa entre Estados Unidos e China, afinidade política não revoga interesse econômico. Potências defendem seus produtores, suas empresas, sua tecnologia e seu poder. Não era uma profecia. Era uma conta. A julgar pelo entusiasmo com que parte do agro recebeu a candidatura de Flávio Bolsonaro, talvez valha conferir os números mais uma vez.
Em 1º de outubro, a diretoria da Frente Parlamentar da Agropecuária declarou apoio oficial a Flávio. Quatro dias depois, Ronaldo Caiado anunciou que faria o mesmo no segundo turno. Nada há de estranho em empresários, produtores ou suas representações políticas apoiarem quem consideram mais próximo de seus interesses. A curiosidade começa quando se pergunta se todos os interesses entraram na planilha.
E planilha é justamente uma coisa que o agro sabe fazer. O produtor calcula fertilizante, diesel, frete, câmbio, produtividade, juros, seguro, armazenagem e preço futuro. Alguns centavos por tonelada têm a desagradável propriedade de continuar sendo dinheiro quando multiplicados por uma safra inteira. É uma atividade pouco tolerante a romantismo contábil. Por isso chama atenção a facilidade com que uma parte do setor parece abandonar a calculadora quando a conta chega à geopolítica.
No primeiro trimestre de 2026, a China comprou US$ 11,33 bilhões do agronegócio brasileiro e respondeu por 29,8% das exportações do setor. Os Estados Unidos compraram US$ 2,24 bilhões, equivalentes a 5,9%. No mesmo período, as vendas do agro brasileiro ao mercado americano caíram 31,2%. Esses números não fazem de Pequim amiga do Brasil nem de Washington inimiga. Apenas lembram que países compram, vendem, protegem mercados e defendem interesses. É menos emocionante que uma fotografia de campanha, mas costuma pagar melhor.
O produtor de Iowa também fez a conta
O agricultor americano não interrompe a colheita para verificar a afinidade ideológica do concorrente de Mato Grosso. Ele olha preço, produtividade, mercado e governo. O Departamento de Agricultura dos próprios Estados Unidos descreve o Brasil como concorrente em soja, milho, algodão, carnes, açúcar, café, suco de laranja e etanol. Na soja, o Brasil tomou a liderança americana e hoje responde por parcela próxima de 60% das exportações mundiais. No milho, chegou a superar os Estados Unidos como maior exportador em 2023. No algodão, os dois países disputam a ponta do comércio internacional.
Essa mudança não ocorreu num seminário sobre multipolaridade. Ocorreu em portos, contratos e toneladas. Há vinte anos, os Estados Unidos respondiam por cerca de 40% das exportações mundiais de soja e 68% das de milho. Em 2024, essas participações haviam caído para aproximadamente 26% e 30%. Seria preciso uma confiança extraordinária na fraternidade entre povos para imaginar que Washington observou duas décadas de perda de mercado e decidiu não fazer nada a respeito.
Trump fez exatamente o contrário. A Casa Branca negociou com Pequim compromissos de compra de pelo menos 25 milhões de toneladas de soja americana por ano entre 2026 e 2028, além de pelo menos US$ 17 bilhões anuais em outros produtos agrícolas dos Estados Unidos. O acesso da carne bovina americana ao mercado chinês também entrou no pacote. Washington apresentou o acordo como vitória de seus agricultores. Naturalmente. America First ainda não ganhou uma tradução em que Goiás venha antes de Iowa.
A guerra comercial anterior já havia mostrado o outro lado da equação. Pesquisa publicada em 2026 na revista The World Economy estimou que a retaliação chinesa contra produtos americanos elevou em 28,4% o valor e em 21,2% a quantidade das exportações brasileiras beneficiadas pelo desvio de comércio. Quando o produto americano perdeu espaço na China, o brasileiro ocupou parte dele. Quando Washington negocia para recuperar mercado, tenta recuperar exatamente aquilo que perdeu. Não há vilão nessa história. Há concorrente.
Nem Pequim merece tratamento sentimental. Em 2026, a China limitou importações de carne bovina e passou a aplicar tarifa adicional sobre volumes brasileiros acima da cota. Quando seus interesses domésticos exigiram proteção, a parceria estratégica esperou do lado de fora. Isso é útil porque limpa a discussão de qualquer romantismo. O Brasil ganha quando compradores competem pelo que produz e perde quando transforma um deles em patrono.
Washington chegou com a lista pronta
A discussão deixaria espaço para abstrações se o governo americano não tivesse colocado no papel as políticas brasileiras que pretende alterar. A investigação da Seção 301 tratou de comércio digital, serviços de pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, acesso do etanol americano ao mercado brasileiro, combate à corrupção e desmatamento ilegal. Em julho, Washington aplicou tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos do Brasil. O próprio USTR explicou que sua ação buscava defender agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores americanos. Não chega a ser uma mensagem cifrada.
O momento mais revelador veio em 7 de julho, quando Flávio Bolsonaro participou da audiência pública do USTR. Ele informou que havia se reunido no mês anterior com Donald Trump, JD Vance e Marco Rubio para discutir as tarifas. Uma representante americana então perguntou que medidas, além das tarifas, poderiam levar o Brasil a eliminar as políticas contestadas no processo. Flávio respondeu que as tarifas não eram o caminho adequado, mencionou a possibilidade de mudança de governo em janeiro e sugeriu que Washington considerasse esperar ou suspender a decisão.
É importante não inventar aquilo que o documento não diz. Flávio não prometeu naquela resposta acabar com o Pix, desmontar o RenovaBio ou conceder cada item da lista americana. A transcrição permite uma afirmação mais precisa e, por isso mesmo, mais séria. Diante de uma pergunta sobre como obter mudanças em políticas brasileiras, a possibilidade de um novo governo apareceu na resposta do candidato. Poucas investigações recebem da realidade a gentileza de entregar pergunta, resposta e contexto no mesmo documento.
O Pix ajuda a perceber o alcance dessa agenda. Empresas e associações americanas questionaram características do sistema brasileiro de pagamentos, inclusive o papel do Banco Central e as condições de concorrência. Flávio defendeu a preservação do Pix, mas também propôs mantê-lo afastado de certas redes de pagamentos não ocidentais. O debate, portanto, não é apenas sobre soja ou tarifa. Chega à infraestrutura por onde circulam dinheiro, dados e poder econômico. O agricultor acompanha Chicago, o banco acompanha juros, a mineradora acompanha o minério. Washington tem a inconveniente vantagem de olhar tudo ao mesmo tempo.
A experiência brasileira já deveria servir de vacina contra a ideia de que proximidade política suspende interesse comercial. Em março de 2019, Jair Bolsonaro chegou a Washington oferecendo isenção unilateral de vistos, facilidades em Alcântara e uma cota anual de 750 mil toneladas de trigo com tarifa zero. A comitiva voltou frustrada com a falta de avanços em carne e açúcar, e o apoio americano à entrada do Brasil na OCDE veio condicionado a uma concessão na OMC. Meses depois, Trump ameaçou restaurar tarifas sobre aço e alumínio brasileiros e justificou a medida dizendo que a política cambial do Brasil prejudicava agricultores americanos. A amizade continuava ótima. A conta também.
Goiás já entrou na planilha de Washington
Se a geopolítica ainda parecer distante da porteira, Goiás resolve o problema. O estado governado por Caiado está no centro da corrida por minerais críticos que abastecem motores elétricos, turbinas, eletrônicos avançados e sistemas de defesa. Em março, o governo goiano assinou um memorando de cooperação com os Estados Unidos para pesquisa, processamento, manufatura e atração de investimentos. O documento admite, em determinadas condições, acesso exclusivo temporário de entidades indicadas pelos americanos a informações produzidas por levantamentos geológicos apoiados pelos Estados Unidos. Quem conhece antes o recurso, sua localização e seu potencial não recebeu apenas uma curiosidade científica.
A Serra Verde mostra a escala do movimento. A operação de Minaçu produz em escala os quatro elementos magnéticos de terras raras mais importantes para ímãs permanentes. Em 2026, a americana USA Rare Earth acertou sua aquisição numa operação de aproximadamente US$ 2,8 bilhões. A Serra Verde recebeu financiamento de até US$ 565 milhões da DFC e firmou um acordo de quinze anos para destinar 100% da produção da primeira fase a uma estrutura capitalizada por organismos do governo americano e capital privado, com pisos de preço para os quatro elementos magnéticos.
É preciso reconhecer o mérito. Washington identifica o recurso, financia a expansão, organiza a compra de longo prazo e integra o ativo a uma cadeia concebida para reduzir a dependência ocidental da China. Não é conspiração. É política industrial. Das boas, inclusive. O problema aparece quando o Brasil participa da história apenas com o buraco no chão.
Investimento estrangeiro não é pecado econômico. País que precisa de capital e tecnologia e decide rejeitar ambos pode terminar soberano apenas sobre o próprio atraso. A questão relevante é onde ficam conhecimento, beneficiamento, tecnologia, poder de decisão e margem industrial depois que o minério sai de Goiás. A nova política federal de minerais críticos tenta justamente criar triagem para mudanças de controle estrangeiro, acesso a informação geológica estratégica e operações sensíveis, além de estimular agregação de valor no país. O ponto não é impedir negócio. É evitar que negócio e estratégia sejam tratados como a mesma coisa.
A estratégia está escrita
Há uma razão para soja, Pix e terras raras aparecerem na mesma história. A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos de 2025 afirma que Washington pretende fortalecer cadeias críticas no Hemisfério Ocidental, reduzir dependências, tornar-se parceiro preferencial dos países da região e dificultar o avanço de concorrentes extrarregionais. O documento fala em identificar pontos e recursos estratégicos, mobilizar instrumentos do governo americano e desencorajar certas colaborações com outros parceiros. É uma política legítima para uma potência que sabe o que quer.
O problema brasileiro não está em Washington perseguir seus objetivos. Está em Brasília, Goiânia ou qualquer outro lugar imaginar que esses objetivos sejam automaticamente os nossos. A economia brasileira cresceu em poder externo justamente porque passou a operar entre vários centros, vendendo à China, negociando com os Estados Unidos, buscando Europa, Oriente Médio e Ásia e usando a competição entre compradores e investidores para ampliar sua própria margem. A posição mais racional não é escolher um protetor. É impedir que qualquer potência possa cobrar o preço de ser indispensável.
É por isso que o apoio de Caiado e da FPA a Flávio Bolsonaro merece uma leitura mais séria do que a fotografia eleitoral. Um projeto de aproximação maior com Washington pode produzir ganhos em algumas áreas e custos em outras. A pergunta estratégica é quem fará a conta quando o interesse do agricultor de Iowa colidir com o do produtor de Mato Grosso, quando uma empresa estrangeira quiser controlar um ativo crítico ou quando o governo americano pedir mudanças em regras brasileiras que beneficiem suas próprias empresas. Nessas horas, amizade ajuda a marcar reunião. Não decide o preço.
A calculadora também funciona na geopolítica
O agro brasileiro construiu uma das atividades mais competitivas do mundo porque aprendeu a fazer conta sem sentimentalismo. Incorporou tecnologia, assumiu risco, ampliou produtividade, encontrou mercados e aproveitou uma transformação internacional que deslocou parte do comércio agrícola dos Estados Unidos para o Brasil. Seria uma ironia peculiar chegar ao momento de maior disputa por esse espaço e decidir que geopolítica é a única área em que números podem ser substituídos por afinidade.
Nada disso exige escolher a China contra os Estados Unidos. Essa seria apenas outra forma de dependência, com bandeira diferente. O interesse brasileiro está em vender para quem comprar, negociar com quem oferecer melhores condições, receber investimento sem abrir mão de capacidade de decisão e conservar concorrência suficiente para que nenhum parceiro transforme acesso ao mercado brasileiro em direito adquirido sobre a política brasileira.
O primeiro texto terminava com um aviso. Este termina com uma conta mais completa. O governo americano já declarou os setores que pretende proteger, negociou a recuperação de mercado agrícola na China, abriu contencioso contra políticas brasileiras, incorporou minerais críticos à sua estratégia hemisférica e financiou uma cadeia de terras raras em Goiás. Flávio Bolsonaro já esteve diante do USTR discutindo esse conflito. Caiado e a principal frente parlamentar do agro decidiram apoiá-lo. Todos esses fatos podem coexistir sem teoria conspiratória alguma.
A questão é apenas se quem sabe calcular uma safra inteira está disposto a calcular também o preço de uma escolha estratégica.
Porque o mercado costuma perdoar menos que a política.

Fonte: Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

Löwy: Lula e a corrida pela viradaMichael Löwy respondeu por escrito às perguntas desta entrevista quatro dias antes do ...
07/10/2026

Löwy: Lula e a corrida pela virada
Michael Löwy respondeu por escrito às perguntas desta entrevista quatro dias antes do primeiro turno. Quando escreveu que precisamos ganhar tempo, ninguém sabia ainda como terminaria a noite de domingo. Terminou com Flávio Bolsonaro em 47,03% dos votos válidos, 56.104.503 eleitores, e Lula em 45,16%, 53.879.538. Pouco mais de dois milhões de votos separam um do outro, e três semanas separam o país do dia 25 de outubro. No Congresso que toma posse em 2027, o PL terá a maior bancada que uma única legenda já teve desde 1988, com 121 deputados, e elegeu dezenove senadores de uma vez. A federação PSOL/Rede ficou a 185 votos de cumprir a cláusula de barreira no Espírito Santo, 1,49% onde precisava de 1,5%, e perdeu o fundo partidário e o tempo de televisão. Com ela caíram o PDT, o Avante, o Solidariedade. Dos dez partidos e federações que passaram a cláusula, um só é de esquerda.
Löwy tem oitenta e oito anos, sessenta e cinco deles vividos fora do Brasil. Diretor de pesquisa emérito do CNRS e diretor de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales, publica desde 1970, quando saiu A teoria da revolução no jovem Marx. Vieram depois As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen, sobre marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento, e Redenção e utopia, onde o messianismo judaico e a utopia libertária aparecem presos pela mesma afinidade eletiva. Com Robert Sayre escreveu Revolta e melancolia, o livro que separou o romantismo que quer o passado como destino daquele que rouba do passado a centelha para acender o futuro. Em A guerra dos deuses mostrou que o PT, a CUT e o MST nasceram, em parte decisiva, nas comunidades eclesiais de base. Leu o surrealismo em A estrela da manhã, leu Kafka em Franz Kafka, sonhador insubmisso, leu Weber em A jaula de aço, leu a América Latina em Marxismo e teologia da libertação. Em 2001 assinou com Joel Kovel o manifesto que fundou o ecossocialismo. E em 2005 publicou Walter Benjamin, aviso de incêndio, a leitura das teses Sobre o conceito de história de onde vem a imagem que abre esta conversa. A revolução não é a locomotiva, é o gesto de puxar o freio.
Nas respostas que seguem, ele recusa o freio aplicado a uma cédula, chama o que está do outro lado de falso messias e lembra um nome próprio. Luiz Eduardo Merlino, jornalista, vinte e três anos, morto sob tortura em 1971 por ordem do coronel Ustra, amigo dele. Uma anistia passaria por cima desse nome.
Em 14 de janeiro de 1919, um dia antes de ser assassinada, Rosa Luxemburgo escreveu que a ordem reinava em Berlim e que aquela ordem estava construída sobre areia. A revolução voltaria a se erguer e anunciaria, para horror dos vencedores, o que ela sempre disse de si mesma. Eu era, eu sou, eu serei. Entre 1,49% e 1,5% havia cento e oitenta e cinco votos no Espírito Santo. Entre ontem e o segundo turno há três semanas. Nenhuma dessas distâncias é de pedra.
>>>> Eis a entrevista.
• Começo pela pergunta que o senhor deve estar cansado de ver mal formulada. Em Aviso de incêndio, o senhor mostra que Benjamin inverte a metáfora de Marx. A revolução não é a locomotiva da história, é o gesto de puxar o freio de emergência. No Brasil, a imagem virou moeda corrente para descrever a catástrofe e quase nunca para descrever uma eleição. Pergunto, então, com todo o risco que isso tem. Um voto em Lula no dia 25 de outubro é freio de emergência no sentido benjaminiano, ou é exatamente o oposto, é embarcar na locomotiva e pedir que ela ande mais devagar? E o conceito sobrevive a ser aplicado a uma cédula, ou aplicá-lo ali o dissolve?
Michael Löwy – Para Walter Benjamin, o freio de emergência é uma revolução, não uma simples eleição presidencial. No caso do Brasil, a revolução seria uma ruptura com os fundamentos da civilização capitalista industrial moderna e o início de um processo de mudança radical cujo horizonte seria uma nova civilização, que chamo de ecossocialista, baseada na solidariedade, na justiça social e no respeito à natureza. O voto em Lula é obviamente algo bem mais modesto, mesmo assim importantíssimo, porque permite que o condutor da locomotiva seja alguém disposto a diminuir a velocidade deste trem suicida. Precisamos ganhar tempo! Reduzir a velocidade é fundamental. O outro candidato, Flávio Bolsonaro, está claramente decidido a pôr lenha na fogueira, ou, se se prefere, carvão na fornalha da locomotiva. Do ponto de vista da preservação da floresta amazônica, uma questão decisiva não só para os povos da floresta, mas para toda a humanidade, Lula, ao contrário de seu adversário, tenta limitar os estragos. Não é o caso, infelizmente, do petróleo da Foz do Amazonas, que Lula está disposto a explorar.
• O senhor estabeleceu em A guerra dos deuses algo que a ciência política brasileira ainda digere mal, que o PT, a CUT e o MST nasceram, em parte decisiva, dentro da Igreja, nas comunidades eclesiais de base, e não à revelia dela. O Lula de 1980 vinha das CEBs e do ABC. O Lula de 2026 negocia com a bancada evangélica. O que sobrou daquela origem dentro do partido, e um quarto mandato ainda deve alguma coisa a ela, ou a genealogia virou só história?
Michael Löwy – A herança do que eu chamaria de cristianismo da libertação, ligado à Igreja, mas não necessariamente dentro da Igreja, existe ainda no PT e no governo de Lula. Mas ela é muito mais importante nos movimentos sociais, nas lutas de moradores, camponeses, indígenas, ecologistas. O Movimento dos Sem Terra, por exemplo. Seus fundadores eram agentes de pastoral da Comissão Pastoral da Terra. Desde o início o MST se definiu como movimento secular, sem afiliação religiosa, mas sua cultura política e seus rituais, como a famosa mística do Movimento, têm raízes profundas no cristianismo da libertação. Outros movimentos, como o Movimento dos Sem-teto, têm muitos filiados que são cristãos, católicos ou mesmo evangélicos. As comunidades de base já não têm o mesmo impacto que nos anos 1960 ou 1970, mas ainda estão bastante presentes nos movimentos populares dos bairros periféricos. Além do PT, outros partidos de esquerda, como o PSOL, têm uma participação significativa de cristãos da libertação entre seus militantes.
• O senhor é um dos fundadores do ecossocialismo, coautor do manifesto com Joel Kovel. O governo Lula reduziu o desmatamento e, ao mesmo tempo, empurrou a fronteira petrolífera para a Margem Equatorial. Em termos estritamente ecossocialistas, e não eleitorais, esse governo é parte da solução ou uma versão mais apresentável do problema? E aqui vem o incômodo que eu não sei resolver. A crítica ecossocialista tem direito de ser feita na semana de um segundo turno, ou é justamente esse purismo que historicamente prestou serviço à direita?
Michael Löwy – O programa de Lula obviamente não é ecossocialista, e apresenta sérios limites do ponto de vista social e ecológico. A exploração do petróleo na Margem Equatorial, um desastre para a floresta, para a população local e para a humanidade, se esse petróleo for extraído e queimado, é apenas o exemplo mais evidente. A crítica ecossocialista a Lula se exerce, portanto, no primeiro turno, no segundo turno e depois das eleições.
Dito isto, nós, os ecossocialistas, sabemos que um governo Lula é infinitamente preferível a um governo da clique Bolsonaro, de caráter ecofascista, totalmente oposto a qualquer medida social ou ecológica. Um tal governo seria diretamente ecocida, e uma catástrofe para o Brasil, a América Latina e o planeta. Seria uma dramática regressão do ponto de vista da democracia, dos direitos indígenas, dos direitos das mulheres, do meio ambiente, da educação, da cultura, da sociedade. Entregaria o Brasil à sanha destruidora dos Estados Unidos de Donald Trump, o inimigo número um dos povos da América Latina e da natureza. Portanto, sem nenhuma hesitação, os ecossocialistas votarão em Lula da Silva, que, com todos os seus limites, é a única alternativa à catástrofe bolsonarista.
• Em Revolta e melancolia, o senhor e Robert Sayre estabelecem que o romantismo se bifurca. Há a saída restauradora, que quer o passado como destino, e a saída revolucionária, que rouba do passado a centelha para acender o futuro. O bolsonarismo me parece romantismo anticapitalista na primeira chave, nostalgia de uma ordem perdida, a família, a nação, a caserna, tudo contra a modernidade sem nunca tocar no capital. Se a extrema direita ocupou a crítica romântica da modernidade, o que restou à esquerda? Existe romantismo revolucionário disponível no Brasil de 2026, ou a esquerda ficou com o papel que o senhor sempre temeu, o de partido da modernização e da administração? E, nessa tipologia, o que é um quarto mandato de Lula?
Michael Löwy – Veja, o romantismo, tal como o definimos, Sayre e eu, em Revolta e melancolia, é uma revolta contra o capitalismo em nome de valores de um passado pré-capitalista, real ou imaginário. O bolsonarismo não corresponde a essa definição. Ele não critica o capitalismo, muito pelo contrário, e o passado ao qual se refere, a ditadura militar, é apenas uma forma mais autoritária e brutal do próprio sistema do capital. Trata-se, como no caso do fascismo, daquilo que o historiador Jeffrey Herf chamava de modernismo reacionário. Identifica-se com o capitalismo, com a indústria e com a tecnologia moderna, hoje em dia a inteligência artificial, e rejeita apenas a herança da Revolução Francesa, a liberdade, a igualdade, a fraternidade.
Quem são os representantes do romantismo revolucionário no Brasil? Aqueles comunistas, ecologistas, ecossocialistas ou indigenistas que rejeitam a civilização capitalista e acreditam que temos muito a aprender com o modo de vida dos indígenas brasileiros. Não podemos voltar a viver na floresta, é certo, mas devemos estudar com interesse e respeito a crítica que os indígenas fazem ao mundo de mercadorias em que vivemos e a relação de harmonia que mantêm com o meio ambiente, as árvores, os animais, os rios.
A esquerda de governo, o quarto mandato de Lula, pertencem mais ao que eu chamaria de modernismo progressista. Sem questionar o próprio sistema capitalista, buscam a realização de reformas sociais progressistas. É uma espécie de social-liberalismo. Não rompe com o modelo neoliberal, mas busca realizar tudo o que é possível para os desfavorecidos, os pobres, os excluídos, com a condição de não mexer com os privilégios dos oligarcas. Os limites dessa política são evidentes, mas não se pode negar que ela tirou milhões de brasileiros da pobreza e levou adiante reformas importantes, como o fim da escala 6×1 e a isenção do imposto de renda para os mais pobres.
• O senhor editou e defendeu Mariátegui, e a frase dele de que o socialismo latino-americano não pode ser decalque nem cópia, tem de ser criação heroica. O que, no lulismo de 2026, é criação e o que é decalque? Ligo essa pergunta a Redenção e utopia, onde o senhor mostrou a afinidade eletiva entre messianismo judaico e utopia libertária, e a ideia benjaminiana de uma débil força messiânica confiada a cada geração. Essa força ainda existe na política brasileira, ou o messiânico migrou inteiro para o outro lado?
Michael Löwy – Quando surge, em 1979, sob a direção do líder sindical do ABC, Lula da Silva, o Partido dos Trabalhadores é uma verdadeira criação heroica. Heroica porque enfrenta imediatamente o regime militar nas grandes greves operárias daqueles anos. Criação porque não é calco nem cópia, e sim algo novo, um partido operário que reúne a classe trabalhadora, as comunidades de base, os intelectuais de esquerda, veteranos da luta de classes como Mário Pedrosa e Apolônio de Carvalho, e grupos marxistas, trotskistas, maoistas. Um partido que consegue integrar todos esses componentes numa organização democrática, enraizada em comitês de base. E que vai adotar, em 1990, depois da queda do muro, um programa socialista, democrático, explicitamente anticapitalista.
Obviamente, o lulismo de 2026 está muito longe dessa primeira versão do PT. É apenas uma variante dos governos chamados progressistas da América Latina, que conseguem fazer algumas reformas significativas, mas perderam sua dinâmica subversiva, antissistêmica. No caso de Lula, os limites são ainda mais evidentes, em parte devido ao controle do Congresso pela direita corrupta e reacionária.
• É exatamente para o outro lado que vou agora. Dark Horse, a cinebiografia de um Jair Bolsonaro condenado e preso, financiada com dinheiro ligado ao Banco Master, banco liquidado por insolvência, traz no papel dele Jim Caviezel, o ator que encarnou Cristo em Mel Gibson. O senhor passou a vida estudando a afinidade eletiva entre religião e emancipação. Aqui parece haver o contrário exato, messianismo sem utopia, redenção sem emancipação, o rosto do Cristo colado num líder que tentou um golpe. Isso tem nome na sua obra? É a estetização da política de que Benjamin falava, ou é uma figura nova, que as categorias de Redenção e utopia não alcançam, por que ali o messiânico ainda apontava para a libertação de alguém?
Michael Löwy – Para Walter Benjamin, o fascismo é um falso messianismo, e seus líderes são figuras do Anticristo, uma caricatura miserável do messianismo libertador. A história das religiões, e da política, está repleta de falsos messias, que se apresentam como salvadores e redentores e não passam de tiranos a serviço das elites dominantes. É o caso do Jair em questão, considerado messias ou mito por seus admiradores, mas que não passa de um obscuro cavalo, um dark horse, montado pela oligarquia brasileira. É pior do que a estetização da política a que se referia Benjamin, em outro contexto. É uma mitificação, uma mistificação da política. O Jair está longe de ser o único. Seu grande amigo e aliado, Donald Trump, é outro falso messias, que tem a cara de pau de se fazer representar, numa imagem criada pela inteligência artificial, como uma espécie de novo Cristo. Já alguns imperadores romanos, como Domiciano, exigiam ser adorados como dominus et deus. É uma velha história.
• Em 2021, o senhor resenhou na En attendant Nadeau o livro de Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles sobre frei Tito de Alencar, o dominicano sequestrado e torturado pela ditadura, exilado na França, morto em 1974. Cinquenta e dois anos depois, um candidato à Presidência faz campanha pela liberdade de um homem condenado por tentativa de golpe, e o Congresso discute anistia aos golpistas. Parte importante do campo religioso brasileiro pede essa anistia. O senhor, que trabalhou a tese benjaminiana de que nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer, o que diz de uma eleição em que a anistia é plataforma? O que uma anistia faz com frei Tito?
Michael Löwy – A anistia dos golpistas de 2022 seria um ataque direto à democracia brasileira e um sinal verde para futuras tentativas de golpe militar. O mesmo vale para a anistia de Jair Bolsonaro, com um agravante. Ele nunca deixou de manifestar sua admiração pela ditadura militar e, em particular, pelo coronel torturador Ustra. Sua anistia seria um insulto à memória não só de frei Tito, mas de todas as vítimas da ditadura militar, os milhares de torturados e as centenas de assassinados pelo regime das casernas. Entre eles um amigo meu, Luiz Eduardo Merlino, jornalista de vinte e três anos, morto sob tortura por ordem do coronel Ustra. Como dizia Walter Benjamin, se o fascismo vencer, nem nossos mortos estarão em segurança.
• A tese VIII diz que a tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que vivemos é a regra. Aplico ao concreto, as centenas de milhares de mortos na pandemia, o 8 de janeiro, a trama golpista julgada. Se Flávio Bolsonaro vencer em 25 de outubro, isso é ruptura, ou é a continuação de uma normalidade que os oprimidos brasileiros sempre conheceram, e o espanto é só nosso, dos que achavam estar fora dela? E, dos seus oitenta e oito anos, sessenta e cinco deles olhando o Brasil de fora, existe especificidade brasileira aqui, ou é mais um capítulo da onda que o senhor vem descrevendo desde os anos noventa?
Michael Löwy – Na história da luta de classes, a regra é a dominação das elites. A exceção é a revolução dos oprimidos, a revolta dos escravos com Espártaco, a dos servos camponeses com Thomas Müntzer, a dos proletários na Comuna de Paris e na Revolução de Outubro. Mas existem diferenças nessa dominação. O fascismo é a forma mais violenta, bárbara e destrutiva do poder das oligarquias. Não é uma exceção, é a forma mais brutal e desumana da regra. Por isso precisamos fazer todo o possível para que não volte, com o filho, o pesadelo que foi o governo do pai. Esperando que algum dia, com a revolução ecossocialista, possamos estabelecer aquilo que Walter Benjamin chamava de o verdadeiro estado de exceção, a emancipação dos oprimidos e dos explorados.
A onda neofascista não é uma especificidade brasileira. Ela é planetária. Já governa a principal potência imperialista, com Trump, e o país mais populoso do planeta, a Índia de Modi, além de vários países da América Latina, e já ameaça vários países da Europa. Se o Brasil conseguir parar essa onda catastrófica nas eleições de outubro, será um sinal encorajador para o mundo todo. Caso contrário, o conjunto do continente americano, com a exceção do México e do Canadá, estará sob a bota neofascista.
Para mim, Trump, Bolsonaro, Milei são manifestações do neofascismo. Não se trata de uma repetição do nazifascismo dos anos 1930. Não temos Estados totalitários, campos de concentração, tropas de choque uniformizadas, políticas econômicas nacional-corporativas. A principal diferença é a política econômica, porque o neofascismo é fanaticamente neoliberal. Mas tem em comum com o fascismo clássico o racismo, a xenofobia, o ódio ao comunismo e a qualquer forma de esquerda, o culto do Chefe e o autoritarismo.

Fonte: Por Michael Löwy em entrevista a Thiago Gama, para Outras Palavras

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