05/06/2026
SAF DA PONTE PRETA: OPORTUNIDADE PERDIDA ONTEM, PRESSA SUSPEITA HOJE
Nos últimos meses, a discussão sobre a transformação da Associação Atlética Ponte Preta em Sociedade Anônima do Futebol voltou ao centro dos debates.
O tema é relevante, merece ser discutido com profundidade e, principalmente, com transparência. Entretanto, para compreender o presente, é indispensável recordar o passado recente.
Poucos sabem que a Ponte Preta já teve uma comissão específica destinada a estudar modelos de SAF e prospectar investidores interessados no clube.
Essa comissão era liderada pelo saudoso Dr. Marcos Garcia Costa e contava com a participação dos Drs. Gustavo Valio, Mário Sérgio Tognolo e Machado. Durante sua existência, foram realizados estudos, análises e diversos contatos com potenciais investidores nacionais e internacionais.
Entre as oportunidades surgidas naquele período, uma merece especial destaque.
Por intermédio de Marcos Lucas Cerone, a comissão foi apresentada à Roc Nation, uma das maiores empresas de entretenimento e gestão esportiva do mundo.
Fundada por Jay-Z, a Roc Nation atua globalmente no gerenciamento de carreiras de artistas e atletas de elite, possuindo forte presença no futebol internacional e também no mercado brasileiro através da Roc Nation Sports Brazil.
Após uma série de reuniões preliminares, a empresa demonstrou interesse concreto em aprofundar as tratativas para uma possível operação envolvendo a Ponte Preta.
Naquele momento, a realidade do clube era completamente diferente da atual.
A Ponte Preta possuía maior valor de mercado, melhores perspectivas esportivas, patrimônio preservado, credibilidade institucional superior e uma situação financeira significativamente menos deteriorada do que a que enfrentamos hoje.
Diante do interesse demonstrado, o Dr. Marcos Garcia Costa organizou uma reunião entre a Comissão da SAF, representantes da Roc Nation e o então presidente Marco Antônio Eberlin.
O que poderia ter sido um marco histórico para o futuro da Ponte Preta acabou se transformando em uma das maiores oportunidades perdidas da história recente do clube.
Segundo os participantes da reunião, o encontro foi monopolizado pelo então presidente, que durante horas conduziu sozinho praticamente toda a conversa.
Em vez de discutir modelos de governança, investimentos, estrutura societária e perspectivas de crescimento, a reunião foi utilizada para longas explanações sobre a história da Ponte Preta e para deixar clara uma posição pessoal que, à época, parecia intransponível: a resistência à transformação do clube em SAF.
Mesmo diante desse cenário, os representantes da Roc Nation insistiram em avançar.
A empresa chegou a sugerir a elaboração de um documento formal para registrar a intenção das partes e permitir a continuidade das negociações.
Contudo, os termos posteriormente apresentados pela administração da época não foram aceitos pela Roc Nation, que acabou encerrando definitivamente as tratativas.
E é justamente aqui que surge uma pergunta inevitável.
Por que quando a Ponte Preta estava em situação muito melhor, possuía maior valor econômico e atraía o interesse de uma empresa globalmente reconhecida, a SAF não era considerada uma alternativa viável?
Por que o tema era tratado com resistência?
E por que agora, após anos de agravamento da crise financeira, aumento do endividamento, perda de receitas, desvalorização do patrimônio esportivo e institucional, a SAF passou a ser defendida com tanta intensidade pelos mesmos personagens?
A lógica empresarial ensina que nenhum ativo deve ser colocado à venda em seu pior momento.
Quanto maior a fragilidade financeira de uma organização, menor tende a ser seu valor de negociação.
Por isso, a preocupação de muitos pontepretanos é legítima.
Discutir uma SAF em meio a uma das maiores crises da história da instituição pode significar negociar o futuro da Ponte Preta em condições extremamente desfavoráveis.
Em outras palavras: existe o risco de entregar um patrimônio centenário por um valor muito inferior ao que ele efetivamente representa.
Outro ponto que desperta atenção são os rumores envolvendo o interesse da Quadra Capital.
A Quadra Gestão de Recursos é uma gestora especializada em ativos ilíquidos, direitos creditórios, precatórios e operações financeiras estruturadas.
Recentemente, ganhou grande projeção nacional ao assumir aproximadamente R$ 15 bilhões em ativos oriundos do Banco Master, em operação relacionada ao processo de reestruturação de liquidez envolvendo o Banco de Brasília (BRB).
Não se trata, portanto, de um investidor tradicional do mercado do futebol, mas de uma instituição financeira com atuação concentrada em ativos complexos e operações estruturadas.
Diante dos rumores de aproximação entre a Quadra Capital e integrantes da atual administração ou pessoas ligadas à gestão passada, torna-se ainda mais importante que qualquer discussão sobre SAF seja conduzida com absoluta transparência.
Quem são os interessados?
Quais são os valores envolvidos?
Quais são as condições propostas?
Qual será a participação associativa?
Qual será o percentual do clube?
Quais garantias existirão para preservar a identidade da Ponte Preta?
Essas perguntas precisam ser respondidas antes de qualquer decisão.
A Ponte Preta não pode ser conduzida por narrativas.
Não pode ser conduzida por pressa.
E muito menos pode ser conduzida sem que associados, conselheiros e torcedores tenham acesso às informações necessárias para formar sua própria convicção.
O que causa estranheza não é a discussão sobre SAF.
O que causa estranheza é a mudança radical de discurso.
Quando o clube estava mais forte, a SAF era rejeitada.
Agora, quando o clube está enfraquecido, endividado e desvalorizado, ela passou a ser defendida como solução urgente.
A história recente demonstra que a Ponte Preta já teve oportunidades concretas de discutir uma SAF em condições muito mais favoráveis.
Talvez a pergunta mais importante não seja se a Ponte Preta deve ou não se tornar uma SAF.
A pergunta correta é:
Quem está interessado na SAF da Ponte Preta, em quais condições, e por que as oportunidades existentes no passado foram descartadas enquanto hoje se fala em vender o clube justamente no momento em que ele vale menos?
Essa é uma resposta que a comunidade pontepretana tem o direito de conhecer.