01/06/2026
Inovação por Paulo Vasconcelos Freitas - artigo JM-Madeira
#150 - [01-06-2026] - Clicou, Pagou, Perdeu - Como ser burlado online...
A edição número 150 das minhas crónicas de tecnologia, quinzenalmente no JM-Madeira que hoje faz 9 anos!
"Com generosidade se burla
Havia uma história que o humorista Fernando Rocha contava, com aquela mistura de graça e brejeirice que só ele sabe, sobre uma ação solidária em que participou. Promoveu um espetáculo e angariaram dinheiro para ajudar uma criança que precisava de um tratamento. Com casa cheia, com boa vontade, com partilhas, com transferências. O resultado? O pai comprou um carro novo. O filho não podia fazer o tratamento de qualquer forma.
É uma história triste. Mas é também um aviso.
Porque o que antes era exceção tornou-se, com as redes sociais e a inteligência artificial, uma indústria.
O bilhete que já não era seu
Começo pelos casos mais recentes, porque são os mais esclarecedores. O Bad Bunny atuou no Estádio da Luz nos dias 26 e 27 de Maio. Dois concertos esgotados em poucas horas, assim que as bilheteiras abriram. Quem não comprou na altura ficou à mercê do mercado paralelo — e o mercado paralelo, como sempre, cobrou caro.
Mas a especulação era o menor dos problemas.
A ASAE, no âmbito da chamada Operação Puerto Rico, deteve seis pessoas por venderem bilhetes nas redes sociais com margens entre os 120 e os 410 euros acima do preço facial. Instaurou processos-crime, apreendeu 14 bilhetes. Parece muito? Eram a ponta do icebergue.
O verdadeiro esquema estava noutro sítio. Um homem do Porto, apresentado publicamente como relações-públicas e jornalista, com 15 mil seguidores no Instagram, ou seja, credibilidade suficiente para convencer, vendia bilhetes e convites VIP. As pessoas transferiam o dinheiro. Ele enviava os bilhetes digitais. Tudo parecia legítimo. Até ao dia anterior ao concerto, quando enviou mensagem às vítimas a dizer que também ele tinha sido burlado e que os bilhetes eram falsos.
Mais de 35 pessoas lesadas. Mais de 19 mil euros desviados. Uma senhora de Braga que gastou 1.200 euros e que, nas palavras de uma das vítimas, "neste momento não tem dinheiro".
E aqui está o ponto que vale a pena perceber bem: o truque dos bilhetes digitais não é novo, mas ficou muito mais fácil de executar. Um ficheiro PDF, uma captura de ecrã com o QR Code, enviado pelo WhatsApp ou por email — parece real, parece oficial. Só no momento de entrada no recinto é que se descobre que aquele código já foi lido. Por outra pessoa. Antes de si.
A plataforma Portal da Queixa registou dezenas de reclamações após o primeiro concerto, com consumidores impedidos de entrar por apresentarem "bilhetes já utilizados". O conselho que ficou — comprar apenas em canais oficiais — é o mais sensato. E também o que menos pessoas seguem quando o preço do canal oficial já duplicou na revenda.
Os cromos que não chegaram, as camisolas que desapareceram
Não é só nos concertos. O fenómeno repete-se em tudo o que é escasso e desejado.
Os cromos da Panini essas “figurinhas” que toda a gente diz que são para os filhos, mas metade dos pais compra por conta própria — tornaram-se alvo frequente. Páginas no Instagram e grupos no Facebook oferecem coleções completas ou cromos raros a preços irresistíveis. Transferência feita. Cromos nunca chegam. Página desaparecida.
As camisolas das seleções e dos clubes de futebol seguem a mesma lógica. A um décimo do preço da loja. "Produto idêntico ao original", diz o anúncio. Às vezes nem chegam. Outras vezes chegam — e são tão parecidas com o original que só a etiqueta denuncia. Mas isso já é outro problema.
A Polícia Judiciária, no âmbito da Operação Showbiz, desmantelou em Março passado um esquema de vendas fantasma e perfis falsos que lesou dezenas de pessoas em todo o país. A operação incluiu buscas domiciliárias e apurou crimes de burla através de meios informáticos. Os perfis usados pareciam reais. Tinham histórico, tinham seguidores, tinham comentários positivos — muitos deles fabricados.
Quando a solidariedade se torna isca
Mas os casos que mais me perturbam são os outros. Os que exploram não a ganância, mas a compaixão.
Em Janeiro deste ano, quando a depressão Kristin devastou várias zonas do país, a PSP foi obrigada a emitir um alerta público: "A solidariedade é essencial, a burla não!" Tinham surgido páginas e grupos nas redes sociais a angariar fundos para as vítimas — fundos que não chegavam a qualquer vítima.
Mais recentemente, em Fevereiro, surgiu no Facebook uma página chamada "Ajuda para a Luísa", com fotografias de uma criança, descrição de uma doença grave, apelos emocionais. Várias pessoas contribuíram. Os burlões chegaram ao ponto de criar um site falso a imitar a plataforma GoFundMe — com um domínio ligeiramente diferente, que a maioria das pessoas não repara.
E há mais. A Polícia Judiciária de Braga deteve, há apenas dias, um homem suspeito de criar campanhas fraudulentas de angariação de fundos alegadamente destinadas a apoiar um menor com doença rara. O método? Múltiplos sites, páginas em redes sociais — e, atenção a este detalhe — conteúdos produzidos com recurso a inteligência artificial. Fotografias geradas. Histórias construídas. Personagens que não existem, tornadas reais por um algoritmo.
A história do Fernando Rocha já era triste. Esta é mais sombria ainda: porque nem a criança existe.
O que mudou — e por que é mais difícil resistir
A questão não é nova, como referi no texto sobre burlas que publiquei há alguns meses. O que mudou é a escala e a sofisticação.
Antes, criar uma página falsa convincente exigia algum trabalho. Hoje, com as ferramentas de inteligência artificial disponíveis, qualquer pessoa com má intenção consegue, em minutos, criar um perfil com fotografia realista, histórico de publicações, comentários positivos e uma narrativa emocional bem construída. Consegue clonar uma página existente — de uma associação, de um influenciador, de um familiar vosso — com uma diferença de um caracter no nome.
E sabe exatamente o que dizer. Porque os modelos de linguagem aprenderam com milhares de campanhas de solidariedade reais. Sabem o tom. Sabem as palavras que ativam a generosidade. Sabem quando pedir urgência.
A onda de solidariedade — que é genuína, que é bonita, que é uma das melhores coisas que ainda temos — tornou-se o veículo perfeito para a fraude.
O que pode fazer
Não há fórmula infalível. Mas há hábitos que ajudam:
Nos bilhetes: compre sempre em plataformas oficiais. Se comprar em revenda, prefira plataformas com garantias e não transfira dinheiro diretamente para contas pessoais. E nunca, nunca aceite um bilhete que lhe chega como captura de ecrã.
Nos produtos: desconfie de preços demasiado bons. Uma camisola oficial da seleção não custa 15 euros, por mais "promoção" que seja. Se parece impossível, é porque é.
Na solidariedade: antes de partilhar ou transferir, verifique. Pesquise o nome da campanha, da pessoa, da associação. Se não encontrar referências confiáveis fora das redes sociais, desconfie. Doe através de canais com identidade verificável — IBAN associado a uma entidade, não a um nome desconhecido.
E se foi burlado: não silencie por vergonha. Apresente queixa na Polícia Judiciária, no Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) ou no Portal da Queixa. O silêncio é o melhor aliado do burlão.
A bondade humana é um bem escasso e precioso. Que não seja o próximo produto em saldos nas redes sociais."