11/04/2026
Existe um mapa antigo guardado numa gaveta da memória.
Não tem GPS, não tem app que o atualize. Mas se você o abrir com cuidado, vai encontrar dois adolescentes meio perdidos que um dia se olharam nos olhos e decidiram, sem saber exatamente o que faziam, que iriam se perder juntos pelo resto da vida.
Boa decisão.
Quarenta anos depois, já percorremos estradas de paralelepípedo na Escócia, pontes centenárias na França, vielas úmidas da Irlanda onde nenhum dos dois sabia para onde virar — e você, Cida, sempre com aquele entusiasmo de quem está prestes a descobrir o maior tesouro do mundo numa esquina qualquer. Às vezes o “tesouro” era um trem errado, uma chuva inesperada, uma placa incompreensível. E a gente ria. A gente sempre ria. Isso não é pouca coisa. Há quem chore com o imprevisível. Há quem brigue. Nós dois temos um superpoder peculiar: transformar mico em memória afetiva e contratempo em piada de jantar. Você nunca foi mulher de meias palavras. O que pensa, diz. O que sente, aparece no rosto, nos olhos, na voz. Em você não há cálculo nem performance. Num mundo onde tanta gente vive de fachada, você é uma das pessoas mais autenticamente vivas que já encontrei. Isso é um presente raro. É um presente de Deus. Sua firmeza de caráter é uma pedra de esquina. Três filhos que cresceram vendo a mãe dizer a verdade. Quatro netos que crescem vendo a avó amar sem meias medidas. Quando Jesus falou em “produzir fruto que permaneça”, acho que tinha em mente exatamente esse tipo de legado — silencioso e poderoso.
Você ama a Deus de um jeito que me ensina. Não é uma fé de vitrine. É uma fé de cozinha.
Caminhamos pelos mesmos corredores do Louvre, mas só você olhou para as obras com expressão de quem vê algo sagrado. Fiquei te olhando olhar. Continuo assim, quarenta anos depois.
Sabe aquele mapa velho dos dois adolescentes perdidos? Ainda carrego ele comigo. Porque descobri que não quero chegar — quero continuar me perdendo na Irlanda, na Argentina, em qualquer país que ainda não marcamos um pininho no mapa, em qualquer conversa que começa às 22h e termina à meia-noite com a barriga doendo de tanto rir.
Feliz aniversário, meu amor.