15/10/2025
🇦🇴𝗔𝗻𝗴𝗼𝗹𝗮 𝗹𝗶𝗴𝗮-𝘀𝗲 𝗮𝗼 𝗰é𝘂: 𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗮çã𝗼 𝗱𝗲 𝘀𝗮𝘁é𝗹𝗶𝘁𝗲𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗿𝗼𝗺𝗲𝘁𝗲 𝘁𝗿𝗮𝗻𝘀𝗳𝗼𝗿𝗺𝗮𝗿 𝗮 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗻𝗲𝘁 𝗻𝗼 𝗽𝗮í𝘀.
Quando o sol nasce sobre a Zona Económica Especial de Luanda-Bengo, o reflexo metálico das grandes antenas parabólicas da nova estação terrestre da Eutelsat OneWeb brilha no horizonte. À primeira vista, parecem esculturas futuristas apontadas para o vazio. Mas para muitos angolanos, essas antenas apontam para algo mais tangível: um futuro com acesso real à internet.
Inaugurada oficialmente em junho de 2025, a estação é considerada um marco tecnológico sem precedentes em Angola e um símbolo do esforço do país para reduzir a exclusão digital que ainda separa milhões de cidadãos do mundo online.
Trata-se da primeira infraestrutura do género em território angolano e uma das poucas no continente africano com capacidade para conectar-se diretamente à constelação de satélites de órbita terrestre baixa (LEO) da Eutelsat OneWeb.
Uma ligação direta ao espaço
As novas antenas da Eutelsat estão ligadas a uma rede de mais de 600 satélites que orbitam a cerca de 1.200 km da Terra, muito abaixo da altitude dos satélites geoestacionários tradicionais, que operam a cerca de 36 mil km.
Essa diferença é essencial. Quanto mais próximo o satélite, menor a latência, ou seja, o tempo que os dados demoram a ir e voltar. O resultado prático: vídeos que não travam, ligações estáveis e transmissões mais rápidas, mesmo em áreas sem fibra óptica.
Em entrevista à imprensa durante a inauguração, Christopher McLaughlin, diretor de Relações Institucionais da Eutelsat OneWeb, descreveu o projeto como “um dos pilares para democratizar o acesso digital no sul de África”.
“A conectividade via satélite de baixa órbita não é o futuro — é o presente. Com esta estação, Angola passa a ter o controlo local de uma infraestrutura capaz de levar internet de alta qualidade a qualquer canto do país, do Namibe ao Cuando Cubango.”
O retrato de um país conectado pela metade
Os números ajudam a compreender a dimensão do desafio.
Segundo dados do Ministério das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social (MINTTICS), cerca de 12 milhões de angolanos — pouco menos de metade da população — têm acesso à internet.
Nas áreas urbanas, especialmente em Luanda, a cobertura 4G supera 80%. Mas, nas províncias interiores como Bié, Moxico e Cuando Cubango, menos de 20% dos habitantes conseguem uma conexão estável.
A lacuna é agravada por fatores estruturais:
Distâncias geográficas imensas e estradas precárias encarecem a instalação de fibra óptica.
Custos elevados de energia e manutenção tornam as operadoras relutantes em expandir suas redes.
E, por fim, a desigualdade económica limita o acesso, já que o custo médio de um pacote de internet em Angola ainda representa mais de 5% do rendimento mensal médio, segundo dados da UIT (União Internacional de Telecomunicações).
A nova estação da Eutelsat OneWeb foi construída com a intenção de superar essas barreiras físicas e económicas, utilizando o céu como caminho mais curto para a inclusão digital.
Uma infraestrutura de classe mundial
Com investimento estimado em 15 milhões de dólares, a estação terrestre ocupa uma área de aproximadamente 5.000 metros quadrados dentro da Zona Económica Especial de Luanda-Bengo.
O complexo inclui antenas de rastreamento de alta precisão, centros de processamento de dados, redundância energética e sistemas de refrigeração sustentáveis, todos operando segundo os padrões Tier III internacionais.
O projeto foi desenvolvido pela Eutelsat Group em parceria com o INACOM (Instituto Angolano das Comunicações) e contou com suporte técnico de empresas locais e internacionais, entre elas a Paratus Group, responsável pela integração com a infraestrutura de fibra óptica nacional.
“A estação não apenas recebe dados dos satélites — ela é também o coração da rede”, explica Maria do Carmo Neto, engenheira de telecomunicações do MINTTICS.
“Tudo o que chega do espaço passa por aqui antes de seguir para os provedores nacionais. É o elo entre o céu e o utilizador final.”
Segundo informações técnicas divulgadas pela empresa, cada antena pode processar até 10 gigabits por segundo de tráfego, com latência média inferior a 70 milissegundos, valor comparável a conexões de fibra urbana.
Internet além da cidade
A principal promessa da nova infraestrutura é expandir a cobertura de internet de alta velocidade para áreas que nunca foram servidas por fibra.
No município de Cuito Cuanavale, por exemplo, escolas e unidades de saúde dependem de ligações 3G instáveis e caras. Com a ativação da rede Eutelsat OneWeb, o governo prevê conectar mais de 1.500 instituições públicas — entre escolas, hospitais e administrações municipais — até o final de 2026.
João Domingos, professor de ciências numa escola do Bié, vê nisso uma esperança real:
“Quando a internet cai, eu não consigo acessar materiais didáticos ou partilhar aulas com os alunos. Se conseguirmos uma ligação estável, não é apenas tecnologia — é oportunidade.”
A tecnologia LEO da Eutelsat OneWeb oferece velocidades que podem ultrapassar 150 Mbps por terminal, o suficiente para ensino à distância, telemedicina, e serviços de e-governança.
Para as empresas, significa também novos horizontes para o comércio digital, agricultura inteligente e indústria de dados. “Uma pequena empresa em Huambo poderá exportar software ou vender produtos online com a mesma eficiência que alguém em Lisboa”, afirmou António da Silva, analista da startup angolana WiConnect.
O impacto regional
A localização estratégica de Angola também é peça central neste projeto.
Com a estação em Luanda-Bengo, o país passa a integrar a malha de infraestrutura de telecomunicações da África Austral, podendo fornecer conectividade não apenas para o território nacional, mas também para países vizinhos, como Namíbia, Zâmbia e República Democrática do Congo.
O Corredor do Lobito, que vem sendo desenvolvido como rota logística e tecnológica, será beneficiado diretamente, pois poderá abrigar redes de fibra e hubs de dados alimentados pelo sinal da OneWeb.
De acordo com o Banco Mundial, projetos de infraestrutura digital integrados ao Corredor do Lobito podem aumentar o PIB da região em até 2,5% nos próximos cinco anos, ao melhorar a comunicação e reduzir custos de operação.
Soberania digital e segurança de dados
Além da conectividade, há também um fator de soberania envolvido.
Antes, grande parte do tráfego de dados por satélite passava por estações fora do país — em Portugal, África do Sul ou Quénia — o que aumentava custos e diminuía o controlo sobre informações estratégicas.
Com a nova estação, Angola passa a controlar localmente a infraestrutura crítica que faz a ponte entre o espaço e a sua rede nacional.
Para especialistas em cibersegurança, isso é um avanço importante na autonomia tecnológica e na proteção dos dados nacionais.
“Ter o controlo físico e técnico da entrada e saída de dados é uma questão de soberania”, comenta Fernando Pacheco, consultor em políticas digitais.
“Angola dá um passo firme para assegurar que o seu tráfego digital não dependa exclusivamente de infraestruturas externas.”
Desafios no horizonte
Apesar do otimismo, os especialistas lembram que o sucesso do projeto depende de fatores complementares.
A expansão da rede elétrica, a formação de técnicos locais e a redução de custos de acesso serão determinantes para que o impacto da estação se torne real no quotidiano das comunidades.
O governo, através do Plano Nacional de Transformação Digital 2023-2027, promete investir mais de 150 milhões de dólares na expansão de fibra e programas de capacitação em TIC, para assegurar que a conectividade via satélite se traduza em progresso social.
A Eutelsat, por sua vez, anunciou planos de construir duas novas estações terrestres secundárias no Huambo e no Lubango até 2026, reforçando a rede e ampliando a cobertura nacional.
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