09/06/2026
DIFERENÇAS ENTRE PAGANISMO, MUNDANISMO E SECULARISMO
— A ignorância e a hipocrisia de certos cristãos
Por: Pedro Bars aka Yadhistóteles
Pai da Yanceli e outros 4
Existe uma curiosa epidemia intelectual que assola parte do cristianismo contemporâneo: a incapacidade de distinguir paganismo, secularismo e mundanismo. Misturam tudo no mesmo s**o, atiram-lhe um rótulo de “coisa do diabo” e seguem viagem com a consciência tranquila. O resultado é uma geração de crentes que combate fantasmas sem sequer conhecer os nomes dos inimigos que julga enfrentar.
Para muitos puritanos modernos, basta algo não ser explicitamente cristão para ser imediatamente classificado como pagão e/ou mundano e secular ao mesmo tempo. É uma espécie de analfabetismo conceitual travestido de zelo espiritual.
Mas as palavras têm significado. E quando se perde o significado das palavras, perde-se também a capacidade de pensar.
Paganismo é uma religião ou um conjunto de religiões. Secularismo é uma categoria social e cultural. Mundanismo é uma categoria moral. São coisas diferentes.
Uma pessoa pagã pode ser profundamente espiritual, disciplinada e devota.
Um secular pode viver uma vida ética e íntegra sem professar qualquer religião.
E um cristão pode ser tão mundano quanto qualquer promíscuo mesmo carregando uma Bíblia debaixo do braço.
O problema é que alguns cristãos desenvolveram uma visão tão simplista da realidade que transformaram o mundo numa espécie de desenho animado moral: de um lado Deus, do outro Satanás. No meio não existem nuances, contexto, reflexão nem pensamento crítico.
Se uma música fala de amor, amizade, pobreza, racismo, corrupção ou injustiça social, logo aparece alguém a perguntar:
— Mas glorifica Deus?
A pergunta parece espiritual. Na verdade, muitas vezes revela apenas preguiça intelectual.
Porque a questão relevante não é se uma obra menciona Deus. A questão é quais valores ela transmite.
Uma música que denuncia a corrupção pode estar mais próxima dos profetas bíblicos do que um cântico vazio repetido mecanicamente durante vinte minutos como aquela porcaria da música “Receberei Coroa”.
Uma poesia sobre compaixão pode refletir mais o espírito do Evangelho do que um sermão recheado de arrogância.
Um filme sobre sacrifício de uma mãe solteira a criar os filhos pode ensinar mais sobre amor ao próximo do que muitas pregações dominicais.
Mas isso exige discernimento. E discernimento dá trabalho.
É muito mais fácil colocar um carimbo vermelho escrito “mundano” e encerrar a conversa.
É aqui que surge a grande contradição.
O mesmo indivíduo que condena um rapper por não mencionar Deus na letra passa a noite inteira maratonando séries da Netflix.
O mesmo que rejeita uma canção secular sobre justiça social assiste sem qualquer constrangimento a três horas de violência, vingança, ganância e manipulação produzidas por Hollywood.
O mesmo que demoniza a música secular como as do Matias Damásio ou Paulo Flores passa horas no PlayStation a matar inimigos virtuais.
O mesmo que acusa artistas de influências demoníacas consome diariamente conteúdos produzidos por empresas que nem sequer partilham da sua cosmovisão religiosa.
Curiosamente, o problema nunca é o ecrã. O problema é sempre o altifalante.
A música tornou-se o bode expiatório favorito da inconsistência religiosa.
Se o critério é “não glorifica Deus”, então metade da vida moderna deveria ser abandonada. Adeus Netflix. Adeus PlayStation. Adeus TikTok. Adeus romances, jornais, documentários, transmissões desportivas e boa parte da literatura universal.
Mas poucos estão dispostos a ir tão longe.
Porque não se trata de coerência.
Trata-se de conveniência.
A régua moral sobe e desce conforme o objecto analisado. Quando o entretenimento preferido está em causa, a interpretação torna-se flexível. Quando é algo de que não gostam, a interpretação torna-se rígida.
É a teologia do gosto pessoal mascarada de santidade.
Eis a pergunta que muitos evitam responder:
Se uma música secular sobre amor ao próximo é mundana, por que razão uma série sobre assaltos como La Casa de Papel não é?
Se um poema contra a corrupção é condenado por não mencionar Deus, por que razão um filme repleto de ambição, luxúria e violência recebe um passe livre?
Se o problema é a ausência de Deus, então a crítica deveria ser aplicada de forma universal.
Se não é aplicada de forma universal, então talvez o problema nunca tenha sido a ausência de Deus.
Talvez tenha sido apenas a presença da incoerência.
O mais irónico é que Jesus raramente ensinava através de hinos. Ensinava através de histórias. Falava de pescadores, agricultores, comerciantes, viúvas, trabalhadores e viajantes. O poder da mensagem não estava no rótulo religioso da narrativa, mas na verdade humana que ela carregava.
Hoje, porém, alguns dos seus seguidores parecem mais preocupados com a etiqueta do produto do que com o conteúdo da embalagem.
Confundem secular com mundano.
Confundem pagão com imoral.
Confundem religiosidade com virtude.
E confundem censura cultural com maturidade espiritual.
No fim das contas, a verdadeira divisão não está entre o religioso e o secular.
Está entre quem pensa e quem apenas repete.
Entre quem examina os valores de uma obra e quem julga pela capa.
Entre a convicção genuína e a conveniência disfarçada de fé.
Porque um cristão pode ouvir apenas música gospel e continuar profundamente mundano.
E alguém que nunca entrou numa igreja pode viver valores mais próximos do Sermão do Monte do que muitos dos guardiões autoproclamados da pureza espiritual.
Essa é a conversa que poucos querem ter.
Mas talvez seja exactamente por isso que ela precisa ser feita.
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