Lixeratura Reversa

M-Arte Angola é uma empresa de produção de eventos culturais e criação de conteúdos artísticos essencialmente poesia e música acústica.

PARTE IO JOGADOR QUE TINHA ANGOLA NOS PÉS— Tu queres mesmo saber como é Angola?— Quero.— Mas queres saber mesmo?— Sim.— ...
11/08/2026

PARTE I

O JOGADOR QUE TINHA ANGOLA NOS PÉS

— Tu queres mesmo saber como é Angola?

— Quero.

— Mas queres saber mesmo?

— Sim.

— Então não me perguntes apenas quanto petróleo temos.

— Porquê?

— Porque se eu te responder só isso, vais sair daqui a pensar que Angola é um barril de petróleo com bandeira.

E Angola é muito mais complicada do que isso.

Aliás, Angola é tão complicada que às vezes parece aquele jogador que entra num campo cheio de gente que sabe jogar, mas ninguém sabe exactamente quem está a perder de propósito.

Deixa-me explicar.

Havia um rapaz no meu bairro
Vou chamar-lhe Kimbito.
Não porque esse fosse o nome dele. Nem porque isso importe.

O Kimbito jogava futebol.
E jogava muito.
Mas quando digo muito, não estou a falar daquele “joga bem” que nós usamos para elogiar qualquer pessoa que consiga dominar uma bola sem cair.
Não.
O Kimbito era diferente.

Ele recebia a bola e parecia que o campo lhe contava segredos.

Os outros corriam atrás da bola.
Ele parecia correr à frente dela.

Os outros precisavam de espaço.
Ele fabricava espaço.

Os outros driblavam três jogadores e f**avam orgulhosos.
Kimbito driblava três, parava, olhava para trás e ainda tinha tempo para perguntar:

— Estão a marcar-me ou estão só a assistir?

Era talento.

Talento daqueles que fazem os mais velhos interromperem a conversa.

— Esse miúdo vai longe.
— Esse vai jogar fora.
— Esse ainda vai tirar a família da dificuldade.
— Esse é jogador para estar nos principais clubes da Europa.

E nós acreditávamos.

Porque há uma idade em que acreditar é mais barato do que pensar.

O problema é que Kimbito não gostava de treinar.
Gostava de jogar.

São coisas diferentes.

Ele queria o aplauso sem gostar da disciplina que fabrica o aplauso.
Queria o resultado sem a rotina.
Queria ser descoberto, mas não queria procurar-se.
Se houvesse jogo, aparecia.
Se houvesse treino às seis ou sete da manhã, dormia.
Se o treinador mandasse correr dez voltas, fazia três e desaparecia.

E quando alguém perguntava:

— Kimbito, assim não vais chegar a lado nenhum.

Ele respondia:

— Com o talento que tenho, não preciso correr atrás de ninguém.

Foi aí que começou a perder.

Não perdeu porque era menos talentoso.
Perdeu porque confundiu talento com destino.
E essa é uma das coisas que eu acho que precisas entender sobre Angola.

Nós temos Kimbitos demais.

Países pobres não são necessariamente países sem talento.
Às vezes são países onde o talento nasceu num lugar que não sabe o que fazer com ele.
E às vezes o próprio talento não sabe o que fazer consigo.

Kimbito via outros jogadores.
Rapazes que não tinham nem metade da sua habilidade.
Mas treinavam.

Treinavam quando chovia.
Treinavam quando ninguém estava a olhar.
Treinavam quando a mãe dizia que não havia dinheiro para transporte.

Treinavam.

Um deles acabou num clube melhor.
Outro foi para an academia de um clube estrangeiro.
Outro conseguiu uma bolsa.
Outro tornou-se profissional.

E Kimbito continuava no mesmo campo.
A cada ano, explicava a própria derrota com uma teoria diferente.

— Aquele teve padrinho.
— Aquele pagou.
— Aquele teve sorte.
— Aquele conhecia alguém.

E algumas vezes era verdade.
Mas não todas.

E essa é outra coisa complicada sobre Angola:

Às vezes a injustiça existe.
Mas depois usamos a injustiça verdadeira para justif**ar todas as nossas próprias desistências.

Kimbito tinha talento.
Só não tinha estrutura.
Mas também não tinha disciplina.
E talvez uma coisa alimentasse a outra.
Porque quando ninguém te ensina a transformar talento em competência, começas a achar que talento sozinho devia bastar.
E quando percebes que não basta, culpas o campo.

Agora imagina que Kimbito não é um rapaz.

Imagina que Kimbito é um país.
Imagina que Kimbito é Angola.

Aí começa a f**ar desconfortável.

Porque Angola é um desses lugares onde, quando eu digo a um estrangeiro que temos petróleo, diamantes, ferro, cobre, ouro, manganês, fosfatos, lítio e outros recursos minerais, ele pensa que estou a exagerar.

Não estou.

O próprio Governo angolano estima que o subsolo contenha 35 dos 45 minerais mais importantes do comércio mundial.

E eu ainda nem falei da água.
Nem das florestas.
Nem das terras agrícolas.
Nem do mar.
Nem da biodiversidade.
Nem do potencial solar.
Nem do potencial hidroeléctrico.
Nem da posição geográf**a.

Angola tem rios, bacias hidrográf**as, terras agrícolas e uma quantidade absurda de recursos naturais.

É um país onde a natureza parece ter feito uma lista e dito:

“Vamos pôr quase tudo.”

Depois olhou para nós e perguntou:

“Agora vocês tratem do resto.”

E nós tratámos.

Só não sei se tratámos bem.

A FAO estima que, em 2025, cerca de 51% do território angolano estivesse coberto por floresta, com cerca de 2,26 mil milhões de metros cúbicos de stock de madeira em

51%

Percebes?

Mais de metade.

E quando pensamos em Angola, muitas vezes pensamos:

Petróleo.
Diamantes.

Fim.

É como olhar para um homem e reparar apenas nos sapatos.

Angola tem floresta.
Tem agricultura.
Tem pesca.
Tem rios.
Tem biodiversidade.
Tem sol.
Tem terras.
Tem minerais.
Tem petróleo.
Tem gás.

E tem gente.

Muita gente.

A estimativa oficial do INE coloca a população em 38.778.554 habitantes em 2026. (Instituto Nacional de Estatística)
E essa população é muito jovem.
O que deveria ser uma vantagem.
Mas pode tornar-se uma bomba social se a economia não conseguir acompanhar o crescimento demográfico.

Porque não basta nascer gente.

É preciso nascer oportunidade.
É preciso nascer escola.
É preciso nascer emprego.
É preciso nascer hospital.
É preciso nascer indústria.
É preciso nascer competência.

Porque uma criança não é apenas uma boca que precisa de comer.

É uma futura professora.
Um futuro engenheiro.
Um futuro agricultor.
Uma futura médica.
Um futuro empresário.
Um futuro mecânico.
Um futuro artista.

Ou, se tudo correr mal, apenas mais um adulto a sobreviver.
E é aqui que começa a nossa conversa sobre educação.

Tu ouviste alguém dizer que Angola tem nove milhões de crianças fora da escola?

Não uses esse número como se fosse uma estatística oficial actual.
A realidade já é suficientemente grave sem precisarmos de inventar uma tragédia maior.

Os dados mais recentes apresentados pelo UNICEF indicam que cerca de 17% das crianças em Angola continuam fora do sistema de ensino. E, entre as que entram, aproximadamente 36% não concluem o ensino primário. (UNICEF)

Agora imagina isto comigo.

Uma criança que não entra na escola.
Outra que entra mas abandona.
Outra que termina sem aprender o suficiente.
Outra que aprende, mas não encontra emprego.
Outra que encontra emprego, mas apenas informal.

E outra que tem talento, mas não tem espaço.

É assim que um país perde jogadores.

Não necessariamente porque não os tem.
Mas porque não consegue treiná-los.

O Banco Mundial estima que aproximadamente 80% dos empregos em Angola estejam na economia informal e descreve o desemprego como um problema especialmente grave entre os jovens. (Banco Mundial)

O INE, no primeiro trimestre de 2026, registava uma taxa de desemprego de 40,7% entre os jovens de 15 a 24 anos. (Instituto Nacional de Estatística)

Agora olha para isto como um treinador.

Tens milhões de jovens.
Tens talento.
Tens recursos.
Tens necessidades.

E tens um campo.

Mas não tens jogadores suficientes treinados para transformar tudo isso em produtividade.

Que equipa é esta?
E quem é o treinador?

É aqui que eu começo a f**ar desconfortável.

Porque nós gostamos muito de dizer:

“Angola é rica.”

Mas riqueza natural não é a mesma coisa que riqueza económica.

Petróleo debaixo da terra não alimenta automaticamente uma criança.
Diamante bruto não alfabetiza ninguém.
Floresta não cria automaticamente uma indústria de madeira.
Rio não constrói sozinho uma central eléctrica.
Terra agrícola não produz comida se não houver irrigação, estradas, crédito, armazenamento, tecnologia e mercados.

O IFAD diz que apenas cerca de 10% das terras aráveis de Angola estão actualmente cultivadas, e que a produtividade agrícola permanece muito baixa.

Então talvez o nosso problema nunca tenha sido apenas aquilo que temos.
Talvez seja aquilo que conseguimos transformar.
Porque riqueza enterrada continua enterrada.
E talento sem treino continua a ser apenas uma possibilidade.

Foi isso que aconteceu com Kimbito.

E é isso que me assusta quando penso em Angola.

Nós temos jogadores.

Só não estamos a colocar todos em campo.

E alguns dos que conseguem entrar em campo descobrem rapidamente que o jogo não é apenas futebol.

É política.
É dinheiro.
É família.
É influência.
É oportunidade.
É geografia.
É sorte.
É educação.
É acesso.

É quem conhece quem.
É quem assina.
É quem fiscaliza.
É quem paga.
É quem recebe.

E aqui começa a parte da história que eu preferia não te contar.

Porque agora já não estamos a falar de Kimbito.

Estamos a falar de contratos.

Aguarde a parte 2…

O que o versículo está a dizer?O ponto interessante é que Ezequiel não está simplesmente a falar de s**o. O s**o é utili...
11/08/2026

O que o versículo está a dizer?

O ponto interessante é que Ezequiel não está simplesmente a falar de s**o. O s**o é utilizado como metáfora para infidelidade religiosa e política.

No capítulo 23, Deus apresenta duas irmãs:

* Oolá → representa Samaria, o reino de Israel.
* Oolibá → representa Jerusalém, o reino de Judá.

A linguagem é deliberadamente chocante. Deus descreve Jerusalém como uma mulher que abandona o seu marido e procura outros amantes.

Na metáfora:

marido = Deus
amantes = outras nações e seus deuses
relações se***is = alianças, idolatria e dependência dessas nações

Portanto, numa linguagem bem contemporânea, a ideia seria algo como:

“Jerusalém deixou de confiar em Deus. Fascinou-se pelo poder, pela cultura, pelos deuses e pelas alianças das outras nações. Desejou aquilo que elas tinham e acabou entregando-se completamente a elas.”

E há uma ironia muito forte aí: aquilo que inicialmente a seduzia acaba por destruí-la.

É justamente isso que torna Ezequiel 23 tão provocador: o profeta não usa uma linguagem religiosa delicada. Ele transforma infidelidade espiritual em uma história de adultério e desejo sexual, justamente para mostrar o quanto, na visão dele, Israel havia traído a sua relação com Deus.

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina.Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás ...
10/08/2026

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina.
Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente.

Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.
Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo.
Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar.
Então você trabalha 40 anos até f**ar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria.

Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.
Você vai para colégio, namora o bastante, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando.
E termina tudo com um ótimo orgasmo!

Não seria perfeito?

DEUS É O MAIOR INIMIGO DO LIVRE-ARBÍTRIOPor: Pedro Bars aka YadhistótelesPai da Yanceli e outros 4.A crônica é extensa, ...
10/08/2026

DEUS É O MAIOR INIMIGO DO LIVRE-ARBÍTRIO

Por: Pedro Bars aka Yadhistóteles
Pai da Yanceli e outros 4.

A crônica é extensa, mas adianto que vale muito a pena ler.

Em Maio escrevi um texto intitulado “DEUS ESTÁ A JOGAR PLAYSTATION COM A HUMANIDADE”, onde usei uma metáfora que me acompanha desde 2011: a possibilidade de a humanidade parecer livre dentro de um jogo cujo comando não está necessariamente nas nossas mãos.

Naquele texto, falei de jogadores, comandos invisíveis, atributos que recebemos antes de entrar em campo, Judas, Faraó e até da possibilidade de o livre-arbítrio ser uma das maiores ilusões que já aceitámos.

Na altura, era uma provocação.
Hoje quero voltar ao mesmo problema.
Mas desta vez não quero f**ar apenas na metáfora do jogo.
Quero entrar no texto bíblico.

Quero trocar o comando da PlayStation pelos versículos, os jogadores pelos personagens bíblicos e a pergunta “quem está a controlar o jogo?” por uma pergunta ainda mais desconfortável:

Se Deus interfere nas condições que produzem uma escolha, podemos continuar a chamar essa escolha de livre?

O que escrevi antes era uma provocação, como já disse.
O que segue é a tentativa de levar essa provocação até às últimas consequências.

Imagina que um juiz decide condenar um homem. Mas, antes do julgamento, o próprio juiz altera-lhe o estado emocional. Depois coloca pessoas à sua volta para lhe fornecerem informações falsas. Em seguida, cria circunstâncias destinadas a empurrá-lo para uma determinada decisão. O homem toma exactamente a decisão que o juiz pretendia. E então o juiz olha para ele e sentencia-o:

— Culpado.

Considerarias isso justiça?
Ou perguntarias se aquele homem realmente teve liberdade para escolher?

Agora esquece o juiz.

Coloca Deus no lugar dele.
E entra no Egipto.

Porque existe uma história bíblica em que Deus manda Moisés falar com o Faraó, exige que o povo hebreu seja libertado e, antes mesmo de tudo começar, anuncia algo particularmente estranho: Deus diz que endurecerá o coração do Faraó.

Não é uma interpretação moderna.
A própria narrativa apresenta essa ideia.
Em Êxodo, Deus diz a Moisés que tornará o coração do Faraó obstinado para que ele não deixe Israel partir.

E aqui começa um dos problemas filosóficos mais interessantes da Bíblia.
Porque uma coisa é Deus saber que Faraó recusará.
Outra coisa é Deus fazer com que Faraó tenha dificuldade em aceitar.

Saber não é necessariamente interferir.
Conhecer uma decisão não signif**a necessariamente produzi-la.
Mas endurecer o coração é outra conversa.

Se Deus interfere na disposição interior de um homem para que esse homem tome determinada decisão, quanto dessa decisão ainda pertence ao homem?

E a pergunta f**a ainda mais desconfortável quando percebemos o que acontece depois.

Faraó recusa.
Deus envia uma praga.
Faraó continua a recusar.
Outra praga.
E outra.

E outra.

A água transforma-se em sangue. Rãs. Piolhos. Moscas. Doenças. Granizo. Gafanhotos. Trevas.

E, no fim, chega uma das passagens mais violentas da narrativa: a morte dos primogénitos do Egipto.

Do primogénito do Faraó ao primogénito do servo.
Dos palácios às casas mais humildes.

A narrativa apresenta uma noite em que o anjo da morte atravessa o Egipto e os primogénitos morrem.

E aqui aparece uma pergunta que raramente recebe a atenção que merece:

O que é que os primogénitos tinham decidido?

Porque o Faraó tinha um coração endurecido.

Mas e o filho do Faraó?
E o filho do agricultor?
E o filho do servo?
E o primeiro filho de uma família que nem sequer tinha poder político?

Se a finalidade das pragas era pressionar o Faraó, por que razão a consequência final recai sobre milhares de pessoas que não tomaram a decisão de libertar ou não libertar Israel?

E se a resposta for que todos estavam debaixo da responsabilidade colectiva do Egipto, surge outra pergunta:

Em que momento a culpa deixa de ser individual e passa a ser hereditária, nacional ou colectiva?

É aqui que a história deixa de ser apenas uma narrativa sobre Moisés e Faraó.
Ela transforma-se numa discussão sobre responsabilidade.

Porque nós aceitamos uma regra muito simples quando julgamos seres humanos:

Quem escolhe, responde pela escolha.
Não condenamos alguém por aquilo que outra pessoa decidiu.
Não prendemos um filho porque o pai cometeu um crime.
Não executamos uma criança porque o rei do seu país iniciou uma guerra.

Pelo menos, não consideramos isso moralmente justo.

Então como devemos interpretar uma narrativa em que Deus endurece o coração de um governante e, depois, pune uma nação inteira pelas consequências dessa decisão?

E existe uma ironia ainda maior.

A Bíblia diz várias vezes que Faraó endureceu o próprio coração.
Ou seja, em determinados momentos, Faraó escolhe.
Em outros, Deus endurece o coração de Faraó.

Aqui essa história se torna filosof**amente fascinante.
Porque f**amos com duas possibilidades.

Faraó é responsável porque escolheu.
Ou Deus endureceu o coração dele.

Mas se Deus endureceu o coração dele, até onde vai a responsabilidade de Faraó?

E se Faraó já tinha escolhido endurecer o próprio coração, por que razão Deus precisou de endurecê-lo novamente?

A teologia possui respostas.

Algumas dizem que Deus apenas confirmou uma disposição que Faraó já possuía.
Outras defendem que endurecer o coração não signif**a eliminar a capacidade de escolha, mas entregar o homem às suas próprias inclinações.

Há quem veja o endurecimento como uma forma de juízo.

São interpretações possíveis.
Mas nenhuma delas elimina completamente a pergunta.

Porque a questão central permanece:

Se Deus controla as condições que produzem uma decisão, em que medida essa decisão continua a ser livre?

E esta não é sequer a primeira vez que escrevo sobre isso.

Na crônica“DEUS ESTÁ A JOGAR PLAYSTATION COM A HUMANIDADE”, já tinha colocado Judas no centro desta mesma inquietação: se a sua traição aparece antecipada nas Escrituras e se a própria narrativa cristã apresenta a morte de Jesus como parte de um plano maior, estaremos diante de um homem que decidiu livremente ou diante de alguém que ocupou uma posição necessária dentro de uma história que já estava em movimento?

Naquele momento deixei a pergunta aberta.
Hoje quero levá-la mais longe.

Porque, quando colocamos Judas ao lado de Faraó, Acabe, Sihon e dos outros episódios que encontramos nas Escrituras, a questão deixa de parecer um caso isolado.
Começa a parecer um padrão que merece ser interrogado.

E a história não termina no Egipto.
Porque o próprio Deus parece fazer algo semelhante com outro rei.

Em Deuteronómio 2, quando Israel pretende atravessar o território de Sihon, rei de Hesbom, o texto diz que Deus endureceu o espírito dele e tornou o seu coração obstinado, para que pudesse ser entregue nas mãos de Israel.

Novamente: um homem decide.

Mas Deus interfere na disposição interior que conduz à decisão.

O padrão começa a aparecer.

E quando pensamos que a questão já não pode f**ar mais estranha, aparece Acabe.

Em 1 Reis 22, o rei Acabe precisa de decidir se vai para a guerra. Ele consulta os profetas. Todos lhe dizem aquilo que ele quer ouvir.
Mas Micaías apresenta uma visão diferente.

Na visão, Deus pergunta quem enganará Acabe para que ele vá à batalha.
Então surge um espírito que se oferece para ser um espírito de mentira na boca dos profetas.

E Deus permite.

Acabe recebe informação falsa.
Toma uma decisão.
Vai para a guerra.
E morre.

Agora repara na diferença.

Com Faraó, temos Deus a interferir no coração.
Com Acabe, temos Deus a interferir na informação.
E informação também determina escolhas.

Se eu te der liberdade para escolher entre A e B, mas manipular deliberadamente todas as informações que recebes sobre A e B, a tua escolha continua completamente livre?

Formalmente, sim.
Psicologicamente, a questão complica-se.
Moralmente, complica-se ainda mais.

Porque liberdade não signif**a apenas poder escolher.
Signif**a também possuir condições minimamente honestas para escolher.

Um homem que escolhe com base numa mentira pode ter exercido a sua vontade.
Mas quem colocou a mentira diante dele também participou na construção da decisão.

E é justamente isso que torna a história de Acabe tão desconfortável.

Deus não precisa de obrigar directamente o homem.
Pode simplesmente construir o cenário.
Pode controlar o coração.
Pode controlar a informação.
Pode controlar as circunstâncias.

E depois o homem escolhe.

Chamamos-lhe livre-arbítrio.

Mas quanto dessa liberdade ainda é nossa?

Há tempos escrevi que talvez cada ser humano entre em campo com atributos que não escolheu: inteligência, temperamento, criatividade, agressividade, resistência emocional, traumas, medos, circunstâncias familiares e tantas outras coisas que começam a moldar uma pessoa antes de ela sequer compreender o signif**ado da palavra “escolha”.

Na altura, era uma provocação, vou repetir isso o tempo todo.
Mas Faraó leva essa provocação para outro nível.
Porque não estamos apenas a falar das condições que alguém recebe antes de começar a jogar.
Estamos a falar de Deus interferir directamente na disposição interior de um jogador já dentro do campo.

Faraó não recebeu apenas um determinado “overall”.
Segundo a narrativa, Deus endureceu-lhe o coração.

E isso muda completamente o problema.

Porque se Deus pode alterar o próprio jogador enquanto a partida está a decorrer, precisamos de perguntar:

Onde termina a personalidade de Faraó e começa a intervenção de Deus?

Esta não é uma pergunta exclusiva sobre Faraó.

É uma pergunta sobre todos nós.

Ninguém escolhe nascer.
Ninguém escolhe os pais.
Ninguém escolhe o país onde nasce.
Ninguém escolhe a família que o recebe.
Ninguém escolhe os primeiros anos da própria infância.
Ninguém escolhe os primeiros traumas.
Ninguém escolhe a primeira língua.
Ninguém escolhe as primeiras referências morais.
Ninguém escolhe aquilo que os pais lhe ensinam antes de possuir capacidade para questioná-los.
Ninguém escolhe a sociedade que molda os primeiros pensamentos.

E, depois de tudo isso, dizemos:

“Agora és livre. Escolhe.”

É uma frase bonita.
Mas é filosof**amente complicada.

Porque quanto daquilo que chamamos “eu” foi escolhido pelo próprio “eu”?

Quando escolho, quem está a escolher?

O homem que sou hoje?

Ou todas as experiências que me transformaram no homem que sou hoje?

E se essas experiências não foram escolhidas por mim, mas determinaram os meus desejos, os meus medos, os meus impulsos e a minha forma de interpretar o mundo, onde começa exactamente o livre-arbítrio?

É aqui que a metáfora que usei no meu texto “DEUS ESTÁ A JOGAR PLAYSTATION COM A HUMANIDADE” volta a fazer sentido.

Na altura, escrevi que o jogador dentro do jogo pode parecer livre, embora exista alguém fora do campo a controlar o comando.

Hoje a pergunta tornou-se mais séria.
Porque uma coisa é imaginar isso como uma metáfora.
Outra coisa é encontrar, dentro da própria narrativa bíblica, situações em que Deus endurece corações, influencia circunstâncias, interfere na informação recebida e conduz acontecimentos para determinados resultados.

Na PlayStation, o jogador pode acreditar que está a decidir.
Mas existe sempre alguém com o comando.

Na Bíblia, a pergunta é muito mais difícil:

Quem segura o comando?

E então aparece Judas.

E aqui a questão torna-se ainda mais delicada.
Porque Judas é apresentado como aquele que trai Jesus.

Ele recebe trinta moedas de prata.
Entrega Jesus.
E, depois, arrepende-se.

Mas existe uma pergunta que raramente fazemos com a mesma intensidade:

Judas estava realmente a escolher livremente aquilo que já estava anunciado nas Escrituras?

Muito antes dos acontecimentos narrados nos Evangelhos, encontramos textos que parecem antecipar elementos da traição.

Nos Salmos, encontramos a passagem de que alguém próximo que se volta contra aquele em quem se confiava.
E, em Zacarias, encontramos algo ainda mais específico: trinta moedas de prata.

Séculos depois, os Evangelhos apresentam Judas a receber precisamente esse valor pela entrega de Jesus.

Mateus interpreta esses acontecimentos à luz das Escrituras.

E aqui surge uma dúvida difícil de ignorar.

Se a traição de Judas já estava anunciada, se o valor pelo qual ele entregaria Jesus já aparece no texto profético e se a própria narrativa cristã apresenta a morte de Jesus como algo que deveria acontecer, até que ponto Judas estava simplesmente a cumprir aquilo que já estava determinado?

Não estou a afirmar que Judas não teve liberdade.

Estou a levantar a questão.
Porque existe uma diferença entre dizer:

“Judas escolheu trair Jesus e as Escrituras previram a sua escolha.”

e dizer:

“Judas precisava de trair Jesus porque aquilo já estava determinado pelas Escrituras.”

As duas afirmações parecem semelhantes.
Mas filosof**amente são completamente diferentes e vocês sabem que eu amo filosofar, por isso sou o Yadhistóteles.

Na primeira, Judas continua a ser um agente livre cuja decisão foi conhecida antecipadamente.
Na segunda, Judas torna-se uma peça necessária para que um acontecimento previamente determinado aconteça.

E então surge novamente o problema:

Se o acontecimento tinha necessariamente de acontecer, Judas poderia ter escolhido não o fazer?

Se pudesse, o acontecimento previsto poderia não acontecer.

Se não pudesse, em que sentido a decisão era livre?

E há ainda outro detalhe.

O Evangelho de João diz que Satanás entrou em Judas.

Ou seja, além da profecia, temos também uma narrativa de influência espiritual sobre aquele que iria trair Jesus.

Não precisamos de concluir que Judas foi simplesmente manipulado.
Mas a possibilidade levanta uma questão inquietante:

E se Judas não fosse apenas um traidor, mas também parte de uma engrenagem que já estava em movimento antes de ele tomar a decisão?

Se a sua traição era necessária para cumprir aquilo que havia sido anunciado, quem estava realmente a conduzir a história?

Judas?
Satanás?
As circunstâncias?
A profecia?

Ou Deus?

E se Deus já sabia que Judas faria aquilo, permitiu que acontecesse e, ao mesmo tempo, tinha um propósito definido para aquela traição, quanto da escolha de Judas ainda pode ser chamado de livre?

A pergunta não é pequena.

Porque, se Judas tinha de trair para que o plano se cumprisse, condená-lo pela traição cria exactamente o mesmo problema que encontramos no Faraó:

Como responsabilizar moralmente alguém por desempenhar um papel que, de alguma forma, já estava inscrito no destino da história?

E talvez seja precisamente por isso que Judas seja uma das figuras mais intrigantes de toda a narrativa cristã.
Porque podemos vê-lo como um homem que escolheu trair.
Mas também podemos perguntar se ele foi apenas o homem que acabou por ocupar o lugar que a própria narrativa precisava que alguém ocupasse.

E essa dúvida é suficiente para complicar ainda mais a nossa ideia de livre-arbítrio.

Em Juízes 9, encontramos outra passagem curiosa.

Depois da violência praticada por Abimeleque e pelos homens de Siquém, o texto diz que Deus enviou um espírito de hostilidade entre eles.

Aqueles que estavam juntos começam a voltar-se uns contra os outros.

O resultado é conflito.
Ruptura.
Violência.
E claro, Morte.

Mais uma vez, encontramos uma ideia semelhante:

Deus não precisa de descer pessoalmente à praça para empurrar cada homem.

Pode alterar o ambiente.
Pode criar a hostilidade.
Pode permitir que uma relação se transforme numa guerra.

E então as pessoas fazem aquilo que as pessoas fazem.

Escolhem.
Agem.
Matam.

E depois respondem pelas próprias escolhas.

É uma estrutura curiosa.

Deus prepara o tabuleiro.
O homem movimenta as peças.

E talvez seja exactamente aqui que a metáfora da PlayStation deixa de ser apenas uma metáfora divertida.
Porque, no jogo, o jogador dentro do campo parece livre.

Ele corre.
Passa.
Perde a bola.
Remata.
Faz falta.
Falha.
Marca.
Celebra.

E, no entanto, existe alguém fora do campo com um comando na mão.

O jogador pode sentir que a jogada nasceu exclusivamente dele.
Mas existe uma inteligência exterior capaz de alterar a direcção do jogador, interromper a partida, substituir a estratégia e decidir o momento em que o jogo termina.

Na vida, obviamente, a realidade é infinitamente mais complexa do que uma PlayStation.
Mas a metáfora continua a incomodar por uma razão:

E se a sensação de controlo não for a mesma coisa que controlo?

É uma pergunta que já me perseguia quando escrevi o primeiro texto.
Agora ela tornou-se mais difícil de ignorar.

Porque Paulo pega precisamente no caso do Faraó e coloca-o no centro de uma discussão teológica.

Em Romanos 9, Paulo afirma que Deus levantou Faraó para demonstrar o seu poder.
E depois diz algo ainda mais perturbador:

Deus tem misericórdia de quem quer e endurece quem quer.

Não é uma frase fácil de contornar.
E parece que Paulo sabe disso.

Porque imediatamente surge a objecção:

“Então por que Deus ainda culpa alguém? Pois quem pode resistir à sua vontade?”

É uma pergunta extraordinária.
Porque é praticamente a pergunta que estamos a fazer.

Se Deus decide.
Se Deus endurece.
Se Deus determina.
Se ninguém consegue resistir à vontade de Deus.

por que responsabilizar o homem?

A resposta de Paulo não é exactamente uma solução filosóf**a para o problema.
Ele pergunta, em essência, quem somos nós para questionar Deus.

E aqui chegamos a um ponto fundamental.

A resposta bíblica pode não estar a tentar resolver o paradoxo do livre-arbítrio.

Está a reafirmar uma hierarquia:

Deus é o Criador.
O homem é a criatura.

Deus decide.
O homem responde.

Mas isso deixa uma pergunta viva:

Se Deus pode determinar aquilo que o homem fará, a responsabilidade humana continua a ser moralmente justa?

Porque autoridade e moralidade não são necessariamente a mesma coisa.

Um rei pode mandar.
Um juiz pode condenar.
Um pai pode ordenar.
Um governo pode legislar.
Mas nenhuma dessas posições transforma automaticamente tudo aquilo que fazem em moralmente correcto.

Então por que razão a situação seria diferente quando colocamos Deus no topo da hierarquia?

Voltemos ao Egipto.
Porque há uma parte da história que não deveria ser escondida atrás de palavras religiosas bonitas.

Crianças morreram.

A narrativa apresenta a morte dos primogénitos como o golpe final sobre o Egipto.

E podemos discutir contexto.
Podemos discutir o mundo antigo.
Podemos discutir a natureza colectiva das sociedades daquela época.
Podemos discutir o signif**ado teológico das pragas.
Podemos dizer que o Egipto tinha oprimido Israel durante gerações.

Tudo isso merece ser discutido.

Mas uma pergunta permanece:

Uma criança que nasce num sistema injusto é moralmente culpada pelo sistema em que nasceu?

Se não é, por que morre?

E se a resposta for “porque fazia parte do juízo sobre o Egipto”, surge uma questão ainda mais desconfortável:

A justiça divina funciona segundo uma lógica diferente da justiça moral humana?

Se funciona, precisamos de admitir isso.

Porque, se Deus pode fazer algo que consideraríamos monstruoso se fosse praticado por um homem, apenas porque Deus o fez, então a palavra “bom” começa a mudar de signif**ado.

“Bom” já não signif**a aquilo que é moralmente bom.

Passa a signif**ar:
Aquilo que Deus decidiu fazer.

E isso muda completamente a discussão.

Esta é uma das perguntas que mais assusta a religião.

Não:

“Deus existe?”

Mas:

“E se a nossa interpretação de Deus estiver errada?”

Porque o problema pode não ser Deus.
Pode ser a nossa leitura de Deus.

Os textos podem estar a descrever acontecimentos segundo a compreensão moral e cultural dos seus autores.
Podem estar a interpretar acontecimentos históricos através da linguagem religiosa disponível naquele tempo.
Podem existir camadas literárias, teológicas e culturais que não percebemos completamente.

Tudo isso é possível.

Mas então surge uma consequência interessante:

Se podemos questionar a interpretação, também podemos questionar a conclusão moral que extraímos dela.

E isso devolve-nos ao livre-arbítrio.

Porque um Deus que exige que o homem seja moralmente responsável também parece exigir que o homem seja capaz de discernir moralmente.

Caso contrário, estamos perante mera obediência.
E obediência não é necessariamente virtude.

Um robô pode obedecer.
Um soldado pode obedecer.
Uma máquina pode obedecer.

A moralidade começa precisamente quando existe a possibilidade de perguntar:

“Devo fazer isto?”

Imagina que amanhã alguém aparece diante de nós e diz:

“Deus mandou-me fazer isto.”

E aquilo que ele pretende fazer é claramente monstruoso.

Nós não diríamos:

“Se Deus mandou, então está certo.”

Primeiro perguntaríamos:

“Como sabes que foi Deus?”

E essa pergunta é fundamental.
Porque entre Deus e o homem existe sempre uma coisa chamada interpretação.

Deus fala.
Alguém interpreta.

Deus ordena.
Alguém transmite.

Deus pune.
Alguém conta a história.

E nós, séculos depois, recebemos a versão escrita e tentamos descobrir o que realmente aconteceu.

Por isso, quando alguém diz:

“Deus fez isto”,

a pergunta mais importante pode não ser:

“Por que Deus fez isto?”

Pode ser:

“Como sabes que foi Deus?”

Essa pergunta protege-nos de uma coisa perigosa:
transformar a nossa interpretação em vontade divina.

Porque é exactamente assim que a autoridade se torna absoluta.

O homem deixa de dizer:

“Eu acho que isto é correcto.”

E passa a dizer:

“Deus quer isto.”

A partir daí, qualquer discordância deixa de ser apenas discordância.

Pode transformar-se em pecado.
Blasfémia.
Rebeldia.
Desobediência.

E o livre-arbítrio começa a morrer não quando alguém impede fisicamente uma pessoa de escolher, mas quando convence essa pessoa de que questionar a escolha é moralmente proibido.

Então quem é o maior inimigo do livre-arbítrio?

Pode não ser Deus.
Pode ser a ideia de que a vontade de Deus elimina a necessidade de pensar.

Porque existe uma diferença enorme entre:

“Deus mandou, por isso vou obedecer.”

e

“Acredito em Deus, mas ainda preciso de pensar sobre aquilo que considero certo.”

A primeira posição entrega a consciência à autoridade.

A segunda mantém a consciência viva.

E é por isso que a história do Faraó incomoda tanto.

Porque nela temos um homem que aparentemente decide.
Mas Deus endurece-lhe o coração.

Temos um rei que recebe informação.
Mas Deus permite que seja enganado.

Temos um rei que enfrenta Israel.
Mas Deus endurece o seu espírito.

Temos homens que se tornam inimigos.
Mas Deus coloca entre eles um espírito de hostilidade.

Temos Judas, que trai Jesus por trinta moedas de prata, num episódio associado pelos Evangelhos às Escrituras que o antecediam.

Temos uma nação punida.

E, no fim, temos crianças mortas.

E temos Paulo a olhar para tudo isso e a perguntar, essencialmente:

“Quem pode resistir à vontade de Deus?”

É uma pergunta que parece defender Deus.

Mas também pode ser lida como o ponto exacto onde o problema do livre-arbítrio começa a f**ar impossível de ignorar.

Porque se ninguém pode resistir à vontade de Deus, então a pergunta deixa de ser:

“O homem é livre?”

E passa a ser:

“Em que sentido chamamos liberdade àquilo que Deus já decidiu?”

E aqui chegamos ao paradoxo.

Se Deus sabe, mas não interfere, o livre-arbítrio parece possível.

Se Deus sabe e determina, a liberdade torna-se problemática.

Se Deus determina e ainda responsabiliza, a justiça torna-se problemática.

Se Deus determina, responsabiliza e pune, temos um problema ainda maior:

quem escolheu realmente?

Faraó?
Ou Deus?

Acabe?
Ou Deus?

Sihon?
Ou Deus?

Abimeleque?
Ou Deus?

Judas?
Ou Deus?

E quando chegamos ao fim da história, a pergunta mais desconfortável não é sequer sobre eles.

É sobre nós.

Porque cada vez que dizemos:

“Deus sabe o que faz”,

estamos a encerrar uma discussão ou a fugir dela?

Cada vez que dizemos:

“Os caminhos de Deus são insondáveis”,

estamos a reconhecer a nossa ignorância ou a transformar a ignorância numa resposta?

Cada vez que dizemos:

“Não devemos questionar Deus”,

estamos a proteger a fé ou a impedir a consciência de fazer o seu trabalho?

Porque uma fé que não pode ser questionada pode tornar-se apenas obediência.

E uma consciência que não pode questionar a autoridade deixa de ser consciência.

Na crônica de Maio terminei o texto dizendo que até a pessoa que discordasse de mim naquele momento poderia acreditar que tinha discordado por vontade própria.

Hoje percebo que aquela frase era apenas o começo da pergunta.

Porque se até a nossa discordância pode ser condicionada por aquilo que recebemos, por aquilo que vivemos, pelas informações que nos foram dadas, pelas pessoas que nos educaram e pela forma como a nossa mente foi construída, então a pergunta mais honesta não é simplesmente:

“Sou livre?”

É:

“Quanto daquilo que chamo de escolha nasceu realmente em mim?”

E se Deus pode interferir precisamente nesse espaço onde uma decisão nasce, então a questão deixa de ser apenas se existe um comando.

Passa a ser:

quem escreveu o código?

Voltemos à PlayStation.

No jogo, o jogador não escolhe necessariamente os atributos dos personagens (ou os bonecos).
Não escolhe a velocidade.
Não escolhe a resistência.
Não escolhe a inteligência artificial dos adversários.
Não escolhe a chuva.
Não escolhe a lesão.
Não escolhe sequer o momento em que o jogo começa.

Ainda assim, quando recebe o comando nas mãos, sente que está a jogar.

E é justamente aí que a metáfora se torna perigosa.
Porque a vida também nos entrega um conjunto de condições que não escolhemos.

Nascemos dentro de uma história que já começou.

Recebemos um corpo.
Uma família.
Uma língua.
Uma cultura.
Uma classe social.
Uma época.
Uma estrutura emocional.
Uma educação.
Uma religião ou ausência dela.
Traumas
Oportunidades.
Limitações.

E, dentro de tudo isso, começamos a dizer:

“Eu escolhi.”

Mas quem escolheu as condições que produziram aquele “eu” que escolheu?

Aqui o problema do livre-arbítrio deixa de ser apenas religioso.

Passa a ser psicológico.
Filosófico.
Neurológico.
Moral.
Existencial.

Talvez a liberdade não consista em escolher absolutamente tudo.

Talvez consista apenas no pequeno espaço que existe entre aquilo que recebemos e aquilo que fazemos com o que recebemos.

Essa seria uma possibilidade.

Mas, se for assim, precisamos de abandonar a ideia confortável de um livre-arbítrio absoluto.
Porque ninguém começa a partida do zero.
Todos entram em campo com atributos que não escolheram.

E isso foi precisamente o que eu tentei explorar no meu texto anterior.

Só que Faraó acrescenta uma dimensão que me incomoda ainda mais:

E se o próprio Deus estiver a mexer nos atributos durante a partida?

E aqui a questão torna-se quase impossível de ignorar.
Porque se Deus controla o cenário, as circunstâncias, a informação e até a disposição interior dos indivíduos, então podemos continuar a dizer que somos livres.

Mas precisamos de explicar em que sentido.

Não basta dizer:

“Ele podia escolher.”

Precisamos de perguntar:

podia escolher outra coisa?

Porque existe uma diferença entre ter consciência de uma decisão e possuir possibilidades reais de decidir de outra maneira.

Um homem pode sentir que escolheu.
Pode argumentar que escolheu.
Pode defender a sua escolha.
Pode até morrer acreditando que foi completamente livre.

Mas isso não prova que todas as alternativas estavam realmente abertas diante dele.

E esta é a parte mais desconfortável.

Talvez o livre-arbítrio não seja a ausência de condicionamento, mas apenas a nossa experiência subjectiva de sermos autores daquilo que fazemos.
E se for assim, a nossa sensação de liberdade pode ser muito mais frágil do que imaginamos.

Mas não quero transformar uma pergunta numa certeza.
Não tenho uma resposta definitiva.
E desconfio profundamente de quem tenha.
Porque esta não é uma pergunta que se resolve com um versículo.

É uma pergunta que atravessa a filosofia, a teologia e a própria consciência humana.

Podemos defender o livre-arbítrio.
Podemos defender o determinismo.
Podemos tentar conciliá-los.
Podemos dizer que Deus conhece sem causar.
Podemos dizer que Deus determina sem obrigar.
Podemos dizer que o endurecimento do coração é uma forma de juízo.
Podemos até dizer que Judas agiu segundo os seus próprios desejos, mesmo que a sua traição estivesse prevista.

Todas essas posições possuem argumentos.
Mas nenhuma elimina completamente a vertigem da pergunta.

E é precisamente por isso que continuo interessado nela.
Porque o meu objectivo nunca foi destruir a fé de ninguém.

É matar certezas. Sempre disse isso. É inclusive o slogan do meu projecto Lixeratura Reversa.

E existe uma diferença enorme entre destruir uma crença e obrigar uma crença a sobreviver ao questionamento.

Se uma fé for verdadeira, não deveria precisar de uma consciência amordaçada para existir.

Se Deus existe e é realmente omnisciente, omnipotente e moralmente perfeito, a nossa dúvida não pode ser uma ameaça real para Ele.

Então questionar não precisa de ser rebeldia.
Pode ser simplesmente honestidade intelectual.

O problema começa quando alguém transforma uma interpretação numa ordem divina.
Porque, nesse momento, já não estamos apenas a discutir Deus.

Estamos a discutir poder.

E poder sem possibilidade de questionamento é uma das coisas mais perigosas que a humanidade já inventou.

Por isso, quando alguém diz:
“Deus quer.”

Eu quero perguntar:
Como sabes?

Quando alguém diz:
“Deus mandou.”

Eu quero perguntar:
Como sabes?

Quando alguém diz:
“É vontade de Deus.”

Eu quero perguntar:
Como distingues a vontade de Deus da tua própria vontade?

Porque entre o céu e a terra existe sempre um intérprete.

E o intérprete é humano.

É aí que mora o perigo.

Não necessariamente em Deus.
Mas no homem que fala em nome de Deus sem admitir a possibilidade de estar errado.

Porque o instante em que alguém consegue dizer:

“Não precisas de pensar. Deus já decidiu por ti.”

é precisamente o instante em que o livre-arbítrio começa a perder uma batalha.

E existe uma ironia ainda maior.

Passamos séculos a discutir se Deus nos deu liberdade.
Mas quase nunca perguntamos se estamos dispostos a usá-la.

Porque é muito mais confortável receber uma ordem do que carregar a responsabilidade de decidir.

É muito mais fácil dizer:

“Deus quis.”

do que admitir:

“Eu escolhi.”

É muito mais confortável acreditar que existe alguém no céu responsável por todas as nossas escolhas do que aceitar que algumas decisões terríveis podem ser simplesmente nossas.

E talvez seja por isso que o determinismo seja tão sedutor.
Porque a liberdade é pesada.

Se tudo estiver escrito, podemos culpar o roteiro.
Se tudo estiver determinado, podemos culpar o jogador.
Se tudo estiver nas mãos de Deus, podemos descansar.

Mas se somos realmente livres, então algumas coisas são nossas.

A culpa.
A responsabilidade.
A coragem.
O erro.
A escolha.
E até o arrependimento.

Acredito que o maior problema do livre-arbítrio não seja descobrir se somos livres, mas descobrir o que faremos com a liberdade caso ela exista.

Porque liberdade sem responsabilidade é apenas impulso.
E responsabilidade sem liberdade parece injustiça.

É precisamente entre essas duas coisas que a consciência humana continua presa.

E é aí que voltamos ao Faraó.

Um homem.
Um coração.
Uma ordem.
Uma intervenção divina.
Pragas.
Decisões.
Consequências.

E, no fim, mortos que não participaram da decisão inicial.

É difícil olhar para essa história sem perguntar:

onde começa a justiça e onde termina o poder?

E se a resposta for que Deus pode fazer aquilo que nenhum homem pode fazer, então surge outra questão.

Isso signif**a que Deus é moralmente superior ao homem?

Ou signif**a apenas que o homem não possui autoridade para julgar Deus?

Porque são duas coisas completamente diferentes.

Se Deus é bom porque Deus é Deus, então “bom” deixa de ser uma categoria moral independente.
Passamos a definir bondade pela autoridade de quem ordena.

E isso abre uma porta perigosa.

Porque, se a autoridade é suficiente para transformar qualquer acto em moralmente correcto, então a moralidade deixa de ser moralidade.

Passa a ser obediência.

E eu não sei se quero chamar virtude a uma pessoa que apenas obedece porque tem medo da autoridade.
Prefiro a pessoa que consegue olhar para uma ordem, inclusive uma ordem atribuída a Deus, e perguntar:

“Isto é realmente justo?”

Essa pergunta pode ser desconfortável.
Pode ser considerada irreverente.
Pode até ser considerada blasfema.

Mas é uma pergunta humana.

E a consciência humana nasceu precisamente para fazer perguntas.
Por isso, talvez o maior inimigo do livre-arbítrio não seja Deus.

Pode ser a ideia de Deus que construímos quando entregamos a nossa consciência completamente à autoridade.
Pode ser a religião quando deixa de ser procura e se transforma em obediência automática.
Pode ser o medo quando substitui a reflexão.
Pode ser a certeza quando mata a dúvida.
Pode ser o homem quando fala em nome de Deus e exige que ninguém questione.

Porque Deus pode estar acima de nós.
Mas nenhum homem deveria estar acima da possibilidade de ser questionado.

E é aqui que a minha velha metáfora da PlayStation encontra a sua versão mais séria.

No primeiro texto, eu perguntava se a humanidade era apenas um conjunto de jogadores dentro de um jogo maior.

Hoje a pergunta mudou.

Se existe um jogador superior, quem controla o comando?

Se existe um roteiro, quem o escreveu?

Se existem comandos invisíveis, quem os introduziu?

Se existem personagens que cumprem funções necessárias para que a história avance, podemos responsabilizá-las pelo papel que desempenharam?

E se a resposta for que continuam livres porque escolheram aquilo que já estava previsto, precisamos de explicar como essa liberdade funciona.

Porque dizer “é um mistério” pode preservar a fé.
Mas não resolve o problema filosófico.

E é precisamente esse o ponto.

Nem todas as perguntas precisam de uma resposta imediata.
Algumas existem para impedir que respostas fáceis se transformem em dogmas.

No fim, não tenho uma conclusão definitiva.

Tenho uma suspeita.

Quanto mais pensamos sobre Deus, destino, consciência e livre-arbítrio, mais percebemos que a palavra “escolha” é muito mais complexa do que parece.

Porque escolher não é apenas seleccionar A ou B.

É possuir uma mente capaz de desejar A ou B.
É possuir informação suficiente para compreender A e B.
É possuir condições para considerar A e B.
É não ter sido previamente coagido.
É possuir alguma capacidade real de fazer diferente.

E, acima de tudo, é poder dizer:

“Esta decisão é minha.”

Mas se Deus controla o coração de uns, as informações de outros, as circunstâncias de tantos e o destino de todos, então precisamos de repensar aquilo que chamamos de liberdade.

Não basta perguntar se podemos escolher.

Precisamos de perguntar:

podemos escolher outra coisa?

Se não podemos, somos livres ou apenas conscientes do caminho?

E se Deus já conhece, permite, conduz e determina o resultado, quanto da nossa vida é realmente uma escolha?

Eu havia terminado o meu texto sobre a PlayStation dizendo que mesmo quem estivesse a ler aquelas palavras e discordasse de mim poderia acreditar que tinha discordado por vontade própria.
Hoje essa provocação ganhou outra dimensão.

Porque se a nossa própria discordância é influenciada pela nossa educação, pelas nossas experiências, pelos nossos traumas, pelos nossos desejos, pela informação que recebemos e pela estrutura da nossa mente, então a pergunta não é apenas se somos livres para escolher.

É se somos livres para ser quem escolhe.

E essa é uma pergunta muito maior.

Porque podemos estar a escolher.
Mas quem construiu aquele que escolhe?

Se Deus?
Se a natureza?
Se a genética?
Se a sociedade?
Se a educação?
Se o acaso?
Se todas essas coisas juntas?

E, se tudo isso participa na construção do indivíduo, talvez o livre-arbítrio absoluto seja uma ideia muito mais difícil de defender do que imaginamos.

Mas deixo uma provocação final.

Se um homem endurecesse deliberadamente o coração de outro, manipulasse as informações que ele recebe, criasse as circunstâncias para que tomasse determinada decisão e, depois, o castigasse pelo resultado…

chamaríamos isso de liberdade?

Se não chamaríamos…

por que mudamos de nome quando o homem no comando é Deus?

E se a resposta for:

“Porque Deus pode fazer aquilo que nós não podemos.”

Então surge uma última pergunta:

isso signif**a que Deus é moralmente superior ao homem… ou simplesmente que o homem não tem autoridade para julgar Deus?

Porque são duas coisas completamente diferentes.
E é precisamente aí que o livre-arbítrio encontra o seu maior inimigo.

Não na ausência de escolhas.
Mas na existência de uma autoridade tão absoluta que, diante dela, até a nossa consciência aprende a perguntar se ainda tem o direito de discordar.

No fim, a pergunta não é:

“Deus tirou o livre-arbítrio do Faraó?”

A pergunta pode ser muito maior:

Se Deus pode determinar a escolha de um homem e depois responsabilizá-lo por ela, o que signif**a, afinal, ser livre?

E se não conseguimos responder…

temos realmente livre-arbítrio ou apenas a sensação de que temos?

Talvez essa seja a pergunta que nenhum de nós queira levar demasiado longe.
Porque, no momento em que levamos a sério a possibilidade de que as nossas escolhas não sejam completamente nossas, uma coisa assustadora acontece:

começamos a perceber que a maior liberdade que possuímos pode não ser a capacidade de escolher qualquer coisa.

Pode ser apenas a coragem de questionar aquilo que nos disseram que já estava escolhido.

E, no fundo, foi por isso que escrevi este texto.

Não para dizer que descobri a verdade.
Mas para perguntar se ainda somos suficientemente livres para procurá-la.

Gostaste? Partilha se julgar importante.
Mas antes de partilhar, responde a uma pergunta:

Se um Deus pode endurecer o coração de um homem, manipular as circunstâncias da sua decisão, permitir que receba informações falsas e depois puni-lo pelo resultado…

ainda estás disposto a chamar isso de livre-arbítrio?

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Luanda
98032

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